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    Início»Política»Zuzu Angel: A Maternidade como Arma Política Contra a Ditadura Militar
    Política

    Zuzu Angel: A Maternidade como Arma Política Contra a Ditadura Militar

    14 de abril de 2026
    Zuzu Angel: A Maternidade como Arma Política Contra a Ditadura Militar
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    O Atentado que Silenciou uma Voz de Resistência

    Há cinco décadas, a renomada estilista Zuzu Angel foi vítima de um atentado fatal ao dirigir pelo túnel Dois Irmãos, no Rio de Janeiro. Em um trágico episódio, seu veículo colidiu com outro, levando-a a despencar de um barranco. O que parecia ser um acidente foi, na verdade, uma tentativa de silenciar uma das vozes mais contundentes na luta contra a ditadura militar no Brasil.

    Com apenas 53 anos, Zuzu Angel era mãe de Stuart Edgard Angel, um militante da organização revolucionária MR8. Stuart se uniu à luta armada para combater o regime, mas em 1971, foi preso, torturado e, posteriormente, assassinado nas dependências do Centro de Informações da Aeronáutica (CISA). Por cinco longos anos, a estilista dedicou-se a buscar seu filho e a denunciar as atrocidades do regime militar.

    A Maternidade como Ferramenta de Protesto

    De acordo com a historiadora Cristina Scheibe Wolff, professora da Universidade Federal de Santa Catarina, a luta de Zuzu integra um movimento amplo de mães que, durante as ditaduras sul-americanas, transformaram sua dor em ação política. As Mães da Praça de Maio, na Argentina, são reconhecidas como um dos exemplos mais emblemáticos desse fenômeno.

    “A maternidade foi utilizada como um discurso político que buscava sensibilizar a opinião pública e expor a brutalidade dos regimes. Essa abordagem se conectava com os padrões de gênero da época, permitindo que mães de desaparecidos apresentassem uma imagem humanizada de pessoas que eram tratadas como bandidas e terroristas pela ditadura”, explica a historiadora.

    Ela ressalta que essa forma de resistência foi crucial para deslegitimar as ditaduras na América do Sul, tornando-as menos simpáticas perante a sociedade. “O impacto desses movimentos se mostrou mais efetivo do que a luta armada, que gradualmente perdeu força no Brasil na década de 1970”, acrescenta.

    Gênero e Resistência: Uma Luta Diferente

    O gênero, segundo Wolff, desempenhou um papel central na construção e na comunicação da resistência no Cone Sul (Brasil, Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai e Bolívia) entre os anos 1960 e 1970. Enquanto os grupos armados promoviam discursos associados à masculinidade, enfatizando características como coragem e força, as mobilizações de direitos humanos, muitas vezes lideradas por mulheres, se apoiavam nas emoções e na sensibilidade.

    No caso de Zuzu, sua condição de estilista famosa ampliava o impacto de suas denúncias, permitindo que suas ações alcançassem um público internacional. “Ela usou seu carinho maternal para falar sobre o filho e conseguiu solidariedade de outras mães em situações semelhantes”, observa Hildegard Angel, filha de Zuzu.

    “Seu ativismo era atípico para a época, pois a maioria das pessoas vivia em silêncio e temor. Zuzu começou a expor a morte de Stuart ainda durante o governo de Emílio Garrastazu Médici e continuou sua luta sob o governo de Ernesto Geisel, desafiando dois regimes totalitários e pagando um alto preço por isso”, completa Hildegard.

    A Trajetória de Zuzu Angel

    Zuleika de Souza Netto, conhecida como Zuzu Angel, nasceu em 1921 na cidade de Curvelo, Minas Gerais. Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1939, onde trabalhou como costureira, casando-se com o americano Normal Angel Jones. Entre as décadas de 1940 e 1970, desenvolver sua carreira como estilista, mesclando elementos da cultura brasileira em suas criações, que conquistaram reconhecimento internacional.

    Seu filho, Stuart, estudante de economia, se uniu à resistência armada contra a ditadura militar no final dos anos 1960. Após seu desaparecimento, Zuzu buscou apoio além das fronteiras do Brasil, mobilizando jornalistas e políticos internacionais, incluindo o então secretário de Estado dos EUA, Henry Kissinger, para expor as violações de direitos humanos em seu país.

    Moda como Protesto e Legado Duradouro

    A estilista também usou sua arte como forma de protesto, inserindo símbolos de denúncia em suas coleções. Bordados com anjos feridos, representações de crianças mortas e imagens de tanques de guerra tornaram-se metáforas visuais das atrocidades da ditadura. Seus desfiles eram verdadeiras manifestações políticas, evidenciando a repressão e o luto.

    Recebendo ameaças, Zuzu declarou a amigos que, se algo lhe acontecesse, os responsáveis seriam os mesmos que assassinaram seu filho. “Desafiar o regime era uma atitude corajosa. Ela se opôs a poderosos e dizia: ‘Não tenho medo de vocês. Já tiraram meu filho e não o trarão de volta’”, relembra Hildegard.

    A versão oficial da morte de Zuzu foi de um acidente por muitos anos. Em 2014, a Comissão Nacional da Verdade confirmou que ela havia sido assassinada, resultando em uma certidão de óbito retificada, reconhecendo a responsabilidade do Estado.

    O Legado de Zuzu Angel

    Décadas após sua morte, Zuzu Angel permanece um símbolo de resistência. Para a historiadora Cristina Scheibe, sua trajetória é uma lição sobre a luta contra poderes autoritários. “Ela mostrou que a resistência pode adotar várias formas, não se limitando apenas à luta armada. Pode se manifestar por meio da arte e da cultura”, observa.

    O reconhecimento institucional de sua luta é visível em várias homenagens, incluindo a mudança do nome de um túnel no Rio de Janeiro para Zuzu Angel e a criação da Casa Zuzu Angel/Museu da Moda. “Conseguimos muitas conquistas ao longo dos anos, e isso é parte de sua memória”, conclui Hildegard.

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