Da Feira Livre às Universidades Internacionais
Victor Yves, nascido em Arapiraca e filho de Geo da CONFAA e da professora Socorro França, construiu uma ponte entre as tradições nordestinas e o cenário cultural global. Atualmente morando em Toronto, no Canadá, ele dedicou quinze anos à pesquisa da cultura gráfica do cordel, um gênero literário popular do Nordeste brasileiro. Sua obra reúne mais de 500 capas de folhetos de cordel, que ganharam espaço não só em livrarias brasileiras, mas também em instituições acadêmicas e eventos culturais no exterior.
A trajetória de Victor parte das feiras livres de sua cidade natal, onde acompanhava o pai e se encantava com as imagens e narrativas em verso dos folhetos expostos. Esse contato inicial despertou uma paixão pela xilogravura e pelos traços visuais que compõem a literatura de cordel, que anos depois se transformou em um extenso acervo com cerca de oito mil registros catalogados no projeto CASCA Archive.
Um Mergulho na Cultura Visual Nordestina
Durante sua formação em design, Victor percebeu a escassez de estudos acadêmicos sobre a riqueza gráfica dos folhetos populares. A partir daí, aprofundou-se na pesquisa dos artistas, técnicas de impressão e evolução das capas de cordel desde a década de 1950. O resultado é o livro Visual Culture of Northeast Brazil: Cordel Edition, com aproximadamente 700 páginas e mais de 500 capas reunidas, que resgata o trabalho de xilogravadores, tipógrafos e artistas populares fundamentais para a identidade visual nordestina.
Entre os artistas destacados na publicação estão nomes como Mestre Dila, Mestre Noza, José Costa Leite, Mestre Nunes, Mestre Expedito e J. Borges, referências importantes da cultura popular que contribuíram para a construção dessa estética singular.
Leia também: Centro de Referência em Cardiologia em Canoas: Tecnologia e Parcerias que Transformam a Saúde Pública
Fonte: tcheagora.com.br
Leia também: Opções Imperdíveis para o Dia das Crianças no Grande Recife: Shows, Espetáculos e Atividades
Fonte: diretodorecife.com.br
Reconhecimento Além das Fronteiras
Antes mesmo de ser lançado no Brasil, o livro já circulava internacionalmente, em cidades como Tóquio, Cidade do México, Los Angeles, Nova York, Montreal, Toronto, Berlim, Paris e Porto. Com uma tiragem inicial de mil exemplares — metade destinada ao mercado externo —, a obra integra acervos acadêmicos de universidades renomadas, como Toronto e Stanford.
Além de ampliar a visibilidade da produção gráfica nordestina, o projeto atraiu a atenção de veículos especializados em arte e design, reforçando o valor cultural dessa manifestação popular.
Lançamento em São Paulo e Recife
O lançamento oficial no Brasil teve início em 1º de outubro de 2026, em São Paulo, no espaço cultural Jesuíno Brilhante, no bairro de Pinheiros. O evento reuniu pesquisadores, escritores e admiradores da literatura de cordel em uma roda de conversa com Victor Yves, Xico Sá, Cristhiano Aguiar e Assis Ângelo. O Trio Raça do Pajeú animou o público com forró pé de serra, conectando música, literatura e tradição nordestina.
Na sequência, a programação seguiu para Recife, em 9 de outubro de 2026, no Saltim Café e Tal, em Boa Viagem. A cidade recebeu uma oficina de xilogravura e tipografia conduzida por Waldila, neto do Mestre Dila, que aproximou os participantes das técnicas artesanais do cordel, desde o desenho até a impressão. O lançamento contou ainda com a participação de Victor Yves, Waldila e DJ Dolores.
A edição brasileira incluiu o caderno complementar A Oficina Verbal das Capas, organizado por Eduardo Beu, com cerca de 90 páginas que reúnem traduções, poemas, ensaios e textos inéditos de autores como Xico Sá, Isabelly Moreira e Fausto Fawcett. Produzida na Casa do Cordel Mestre Dila, em Caruaru, a publicação reforça a valorização dos processos manuais que dão vida à arte do cordel.
Tradição que Ultrapassa Fronteiras
Mesmo vivendo em Toronto e preparando-se para uma nova etapa em Amsterdã, Victor Yves mantém viva a conexão com suas raízes. Sua pesquisa não só preserva a memória visual do Nordeste, mas também destaca a importância dos artistas populares que, com criatividade e recursos limitados, moldaram uma das identidades visuais mais expressivas do Brasil.
De Arapiraca para o mundo, Victor mostra que o cordel é muito mais que uma literatura de bolso: é um patrimônio cultural que transcende fronteiras e merece espaço entre as grandes narrativas da arte e do design contemporâneo.

