Prefeitos do interior alinham-se a Lira e Renan em Alagoas
Arthur Lira (PP) e Renan Calheiros (MDB), mesmo concorrendo em chapas distintas nas eleições de Alagoas, têm conseguido um apoio surpreendente no interior do estado. Prefeitos de oito das dez maiores cidades do estado manifestaram publicamente seu alinhamento com as duas candidaturas ao Senado, que irão disputar as duas vagas disponíveis em outubro. Essa convergência política ocorre apesar da rivalidade explícita entre os dois líderes.
Cidades como Arapiraca, Rio Largo, Palmeira dos Índios, União dos Palmares, Penedo, São Miguel dos Campos, Delmiro Gouveia e Coruripe destacam-se nesse cenário. A maioria das manifestações de apoio acontece nas redes sociais dos próprios gestores ou de aliados próximos, reforçando o alinhamento conjunto.
Exceções e dinâmicas na capital e no litoral
Maceió e Marechal Deodoro destoam desse padrão. Na capital, o prefeito Rodrigo Cunha (Podemos) apoia João Henrique Caldas (PSDB), conhecido como JHC, principal adversário de Renan Filho na disputa pelo governo e aliado de Lira. Em Marechal Deodoro, o prefeito André Bocão (MDB) mantém proximidade com os Calheiros, reforçando a divisão política na região.
Essa divisão ajuda a entender a dinâmica da disputa estadual. Enquanto Lira apoia JHC para o governo, Renan está no palanque do filho, Renan Filho (MDB). Simultaneamente, ambos disputam as vagas no Senado, recebendo apoio conjunto de prefeitos, vereadores e deputados em diversas localidades.
Interesses políticos e o pacto informal
A professora de Ciência Política Luciana Santana, da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), aponta que essa situação revela um pacto informal entre os grupos de Lira e Renan, que não se reúnem formalmente para definir estratégias, mas influenciam os prefeitos que mantêm relações próximas com ambos.
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Para os prefeitos, a manutenção dessas relações significa preservar espaços de poder e acesso a recursos em Brasília. Com os dois no Senado, eles garantem articulação para viabilizar obras e investimentos, independente do resultado eleitoral. Essa estratégia permite que os gestores municipais conciliem interesses locais sem se comprometerem exclusivamente com um lado.
Convivência política em Arapiraca
Arapiraca ilustra bem essa convivência política. Apesar do prefeito Luciano Barbosa ser do MDB, partido dos Calheiros, ele participou ao lado de Lira do anúncio da pavimentação de 19 ruas e avenidas na cidade. Além disso, o grupo de Barbosa tem influência nas duas principais chapas que disputam o governo: Célia Rocha, ex-prefeita e aliada do prefeito, é vice de JHC, enquanto Yale Fernandes, secretário de Governo de Barbosa, foi indicado como vice por Renan Filho.
Outro exemplo de alinhamento duplo é Campo Alegre, onde a prefeita Pauline Pereira, prima de Lira, manifestou apoio público a ambos os candidatos ao Senado, reforçando o pacto informal que ultrapassa a rivalidade explícita.
Distinção entre interior e capital
A diferença entre interior e capital evidencia os limites desse acordo tácito. No interior, onde prefeitos dependem da interlocução de ambos os grupos em Brasília, o apoio simultâneo é mais comum. Já em Maceió, a disputa é mais direta, envolvendo o eleitorado e candidatos como Marina Candia (PSDB), esposa de JHC, que concorre ao Senado, e José Wanderley (MDB), apoiado por Renan.
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Luciana Santana destaca que o grupo de Lira precisa administrar a possível concorrência interna em Maceió, já que Marina Candia pode disputar votos no eleitorado local, embora sua influência seja limitada no interior. Esse equilíbrio reforça a cautela nas decisões políticas da capital.
Histórico recente de disputas entre Lira e Renan
Apesar da convivência eleitoral, Lira e Renan têm um histórico recente de embates públicos. Em 2023, disputaram a indicação para vaga no Tribunal Superior do Trabalho, apoiando candidatos distintos na lista sêxtupla da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Além disso, entraram em conflito sobre o acordo entre Braskem e a prefeitura de Maceió, que negociava indenização bilionária pelo afundamento causado pela exploração de sal-gema.
Mais recentemente, a rivalidade se manifestou no Congresso durante a tramitação da ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda. Lira atuou como relator na Câmara, enquanto Renan foi responsável pelo texto no Senado, criticando o projeto aprovado pelos deputados. O confronto culminou em 2025 com uma queixa-crime apresentada por Lira contra Renan no Supremo Tribunal Federal, após declarações do senador sobre sua atuação política em Alagoas. Renan recusou audiência de conciliação, reforçando o status de adversários políticos declarados.
Próximos movimentos políticos
O cenário político em Alagoas permanece dinâmico, com os dois grupos mantendo uma relação complexa de competição e colaboração, sobretudo no interior. As eleições de outubro prometem consolidar ou redefinir esses alinhamentos, enquanto prefeitos e lideranças seguem atentos às articulações que podem garantir acesso a recursos e influência em Brasília.

