Jovens de Alagoas e o desafio do engajamento político
Samara Vitória, de 17 anos, decidiu que não vai votar nas eleições 2026. “Não me sinto preparada e informada o suficiente para tomar uma decisão política”, afirma. Essa insegurança, comum entre muitos jovens, revela um cenário preocupante para a participação eleitoral nessa faixa etária.
Dados da pesquisa Nexus, divulgada pela coluna de Daniela Lima no UOL, indicam que apenas 54% dos jovens entre 16 e 24 anos têm certeza sobre seu voto, enquanto 38% admitem a possibilidade de mudar de escolha. A faixa etária de 25 a 60 anos apresenta índices significativamente maiores, entre 74% e 78% de definição e segurança.
Perfil do eleitor jovem em Alagoas
Em Alagoas, 54.299 eleitores com 16 e 17 anos estão aptos a votar nas próximas eleições, segundo o Tribunal Regional Eleitoral de Alagoas (TRE/AL). Para eles, o voto é facultativo, o que pode influenciar o engajamento.
Flávia Gomes, assessora de comunicação do TRE/AL, observa que a solicitação do título eleitoral por parte dos jovens demonstra interesse em participar das decisões políticas do país. No entanto, ela ressalta que esse engajamento não é homogêneo. “Há uma parcela que, mesmo reconhecendo a importância do voto, ainda se sente insegura”, explica.
Conexão digital e distanciamento político
Samara não pretende votar em outubro, apesar de valorizar o impacto do voto. Ela destaca que sua decisão não é por falta de interesse, mas por sentir que ainda desconhece os candidatos para fazer uma escolha consciente. Busca informações em veículos confiáveis e verifica conteúdos nas redes sociais para evitar notícias falsas.
Para ela, os debates políticos muitas vezes se limitam a posições inflexíveis, sem discussão real de propostas. “Não é escolher o menos pior, mas alguém disposto a fazer a diferença”, afirma. Entre suas prioridades para Alagoas estão melhorias em educação, transporte público, mobilidade urbana e segurança.
Leia também: Governo de Alagoas Apoia NEON 2026, Maior Evento de Inovação do Nordeste
Leia também: Maragogi Inicia Etapa Regional dos Jogos Estudantis de Alagoas 2026
Divergências na participação dos jovens
Erick Monteiro, também de 17 anos, tirou o título eleitoral e votará pela primeira vez. Apesar de reconhecer a importância do voto, admite não acompanhar frequentemente as propostas ou o cenário político local. A ausência de discussões políticas em seu convívio social contribui para esse distanciamento.
Ele avalia que o volume de informações e temas nas redes sociais faz com que a política seja apenas mais um assunto entre muitos, o que pode gerar desinteresse. “O bombardeio constante de conteúdos políticos torna o tema cansativo para a nossa geração”, comenta.
Desafios institucionais para a aproximação da juventude
João Bittencourt, professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), avalia que a juventude tem uma relação distinta com a política. Enquanto os jovens buscam estruturas horizontais, partidos e instituições ainda operam em modelos hierárquicos distantes da realidade, especialmente das periferias.
Ele destaca que a direita tem utilizado estratégias eficazes para dialogar com esse público, principalmente por meio do TikTok e WhatsApp, criando uma imagem de radicalidade e transgressão.
Bittencourt alerta que a ausência dos jovens nas urnas pode reduzir a atenção dos gestores públicos às suas demandas. “Se o jovem não vota, o gestor se sente desobrigado de construir políticas públicas para ele”, afirma.
Iniciativas da Justiça Eleitoral para engajar jovens
O TRE/AL tem investido em comunicação adaptada para as redes sociais, com vídeos curtos e linguagem acessível, além de ações de educação política e combate à desinformação. Flávia Gomes reforça que o objetivo é informar e incentivar a participação consciente, sem direcionar o voto.
Leia também: Mais de 12 mil atletas no JEAL 2026: Abertura dos Jogos Estudantis de Alagoas
Leia também: Futebol Feminino em Alagoas: Expansão Prevista para 2026 com Novo Calendário
Dentre as ações está o concurso “Juventude Contra a Desinformação”, que estimula estudantes a produzir vídeos sobre cidadania digital e enfrentamento às fake news. A iniciativa visa transformar jovens em agentes ativos no combate à desinformação, uma forma de exercício da cidadania.
Educação política como base para o primeiro voto
Para Erick, o estímulo ao voto deve vir acompanhado de educação política para que os jovens compreendam seu papel na sociedade e a influência das decisões políticas em suas vidas.
A Escola Judiciária Eleitoral oferece programas como Eleitor do Futuro, para crianças de 10 a 15 anos, e Eleitor Jovem, para adolescentes entre 16 e 17 anos. As iniciativas buscam apresentar o processo eleitoral e incentivar a participação política antes mesmo do primeiro voto.
O TRE/AL também promove ações em municípios do interior, embora ainda não disponha de dados atualizados para comparar a adesão de jovens fora da capital com a de Maceió.
O desafio da representatividade juvenil
Samara e Erick demonstram que possuir título eleitoral não garante proximidade com a política. O desafio permanece em fazer com que os jovens reconheçam suas demandas nas propostas dos candidatos e entendam o impacto do voto.
João Bittencourt reforça que a ausência dos jovens nas urnas pode levar à diminuição de seu espaço nas prioridades públicas. “O sistema não os enxerga, e eles se sentem cada vez menos representados”, conclui.

