Desafios Persistentes na Saúde Mental de Alagoas
“Nós derrubamos os muros de pedra dos antigos sanatórios de Alagoas, mas erguemos muros invisíveis que são tão violentos quanto os primeiros. Cuidar em liberdade virou um privilégio de quem mora na capital; no interior, o que vemos é um verdadeiro apagão estrutural.” Esse forte desabafo é da terapeuta ocupacional, doutora pela USP e pró-reitora da Uncisal, Dra. Mara Cristina Ribeiro, referência na pesquisa sobre a reforma psiquiátrica em Alagoas. Ela destaca que, mais de duas décadas após a Lei 10.216/2001, que buscou substituir os manicômios no Brasil, o estado ainda enfrenta dificuldades para consolidar uma rede de assistência eficaz, resultando na exclusão de pacientes.
Desigualdade Regional e Falta de Estrutura no Interior
Segundo Dra. Mara Cristina, a desigualdade regional é o principal entrave para o cuidado em saúde mental no estado. Enquanto Maceió e Arapiraca concentram Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e equipes multiprofissionais estruturadas, como o CAPS Casa Verde, administrado pela Uncisal, o interior enfrenta um verdadeiro deserto assistencial. A ausência de CAPS plenamente funcionais e de profissionais como psiquiatras, psicólogos e terapeutas ocupacionais faz com que o peso do cuidado recaia exclusivamente sobre as famílias, que chegam ao limite do esgotamento físico e emocional.
“Quando o Estado falha em estruturar a rede no interior, ele joga um fardo desumano nas costas das famílias”, reforça a especialista. A consequência dessa negligência é que, diante da exaustão e da falta de alternativas públicas, muitos acabam pedindo o retorno ao modelo de internação de longo prazo, o que representa um retrocesso aos antigos manicômios que violavam direitos humanos.
Leia também: Desafios na Demanda por Assistência à Saúde no Brasil: Uma Análise Necessária
Leia também: Curso Gratuito Sobre Jogos de Aposta e Saúde Mental com Inscrições Abertas até 2 de Junho
Fonte: amapainforma.com.br
Rede de Leitos em Hospitais Gerais Ainda é Insuficiente
Outro ponto crítico da reforma no estado é a falta de leitos de saúde mental em hospitais gerais, uma exigência legal para que pacientes em crise aguda sejam atendidos com rapidez e sem a segregação dos antigos manicômios. Na prática, essa rede ainda não está consolidada em Alagoas. A resistência dos hospitais gerais em abrir leitos para saúde mental reforça o preconceito institucional e mantém a exclusão.
“A reforma psiquiátrica não se limita aos CAPS. Ela demanda uma rede ampla, com leitos em hospitais gerais. O que temos em Alagoas são práticas que ainda refletem a lógica manicomial, com hospitais que negam esses atendimentos e perpetuam o abandono”, explica Dra. Mara Cristina.
Preconceito Social e o Impacto na Assistência
Além dos problemas estruturais e orçamentários, a especialista destaca que o preconceito social é uma barreira invisível que dificulta a inclusão das pessoas com transtornos mentais no convívio diário. Essa intolerância atua como uma camisa de força que limita o acesso a espaços públicos, trabalho e lazer, afetando diretamente a qualidade de vida dos pacientes.
Leia também: Menopausa: Impactos no Sono e Saúde Mental das Mulheres e a Clareza Emocional
Fonte: decaruaru.com.br
Leia também: Câmara de São Luís Aprova Lei Controversial que Proíbe Mulheres Trans de Usarem Banheiros Femininos
Fonte: soudesaoluis.com.br
Relevância da Luta Antimanicomial e Compromisso Ético
Para Dra. Mara Cristina, o Dia Nacional da Luta Antimanicomial, celebrado em 18 de maio, deve ser mais do que uma data no calendário. É um termômetro do respeito aos direitos humanos e do avanço democrático no estado. Ela enfatiza que a saúde mental não pode ser encarada como política pública secundária ou sujeita a mudanças conforme interesses políticos.
“Cuidar em liberdade é um compromisso ético inegociável. Não basta atendimento clínico esporádico; é preciso criar espaços de pertencimento nas ruas, praças e locais de trabalho. Uma sociedade se mede pela forma como cuida dos seus sujeitos mais vulneráveis, e Alagoas ainda tem uma conta a pagar”, conclui a especialista, ressaltando a necessidade urgente de avanços concretos no sistema de saúde mental do estado.

