Análise detalhada do levantamento sobre o panorama dos profissionais de odontologia no país
O Ministério da Saúde, em uma ação voltada para aprimorar a discussão sobre os desafios enfrentados na saúde bucal, lançou nesta segunda-feira (4) um levantamento inédito sobre o perfil da odontologia no Brasil. Realizado em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o estudo visa identificar os principais entraves da área, auxiliar na formulação de políticas públicas e fomentar a troca de experiências entre especialistas, gestores e a sociedade em geral.
Os dados revelam que o Brasil conta com aproximadamente 665 mil profissionais de saúde bucal, dos quais 415 mil são cirurgiões-dentistas, quase o dobro das demais categorias. A densidade média é de 19,55 dentistas para cada 10 mil habitantes, mas há uma significativa desigualdade entre as regiões do país. O Sudeste concentra a maior quantidade de profissionais, enquanto a região Norte apresenta os menores índices.
O estudo, intitulado ‘Sociodemografia e Mercado de Trabalho da Odontologia no Brasil’, representa o primeiro volume de uma série demográfica sobre a área. Ele destaca um quadro caracterizado pelo crescimento acelerado do número de profissionais, concentração geográfica e desafios estruturais. Um dos pontos críticos abordados é a chamada “pirâmide invertida”, onde há uma predominância de profissionais com formação de nível superior e uma baixa presença de técnicos e auxiliares, o que pode afetar a eficiência e a qualidade do atendimento prestado.
Felipe Proenço, secretário de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde, enfatizou que o lançamento do levantamento reafirma o compromisso do ministério com a transparência e a utilização de evidências. “Estamos ampliando o acesso às informações e colocando esses dados à disposição do debate público, bem como da construção de políticas que fortaleçam a odontologia no Brasil”, comentou.
Proenço também ressaltou iniciativas voltadas para aumentar a formação de profissionais técnicos, como o programa Formatec-SUS, que integra um conjunto de ações para fortalecer a capacitação no Sistema Único de Saúde (SUS).
Mulheres predominam na odontologia, mas há desigualdade etária
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A força de trabalho na odontologia é majoritariamente feminina, especialmente nas atividades clínicas. Dados mostram que mulheres representam 65,5% dos cirurgiões-dentistas, 93,8% dos técnicos e 96,4% dos auxiliares. No entanto, nas áreas laboratoriais de prótese dentária, a presença masculina é mais significativa.
O perfil etário dos profissionais também apresenta variações. Dentistas e técnicos estão concentrados na faixa etária de 30 a 39 anos, enquanto os auxiliares costumam ser mais velhos. Além disso, os profissionais envolvidos na prótese dentária apresentam um envelhecimento mais acentuado, com uma parte expressiva acima dos 50 anos, o que pode representar desafios futuros para a reposição de quadros.
Formação em expansão, mas mercado enfrenta desafios
O número de cursos de odontologia teve um aumento expressivo de 617,9% entre 1991 e 2023, totalizando mais de 650 cursos, sendo quase 90% no setor privado. No mercado de trabalho, a evolução foi notável entre 2003 e 2012, seguida por um período de estagnação. Em 2023, observou-se uma retomada, com um crescimento de 11,4% nos vínculos formais.
Entretanto, persiste um descompasso entre o número de profissionais e a oferta de vagas. Para cirurgiões-dentistas, existe apenas 0,17 vínculo formal por profissional, indicando uma forte predominância do trabalho autônomo ou informal.
Os dados apontam que 80,9% dos vínculos dos dentistas estão no setor público, enquanto técnicos e auxiliares atuam majoritariamente no setor privado. Além disso, observa-se uma precarização nas condições de trabalho, refletida em um aumento de contratos temporários e salários baixos, especialmente entre os técnicos e auxiliares.
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Crescimento da interiorização e desequilíbrio nas equipes
Embora o Sudeste continue a concentrar a maior parte das oportunidades de emprego, as regiões Norte e Nordeste mostraram um crescimento significativo nos últimos anos, indicando um processo de interiorização da força de trabalho.
Uma parte considerável das contratações, cerca de 90%, refere-se a reempregos, o que sugere que o mercado está mais fechado para a entrada de novos profissionais.
Adicionalmente, há um descompasso notável entre a quantidade de dentistas e as equipes de apoio. Em 2024, o número de dentistas ocupados superou 166 mil, frente a apenas 13,5 mil técnicos e 53,9 mil auxiliares. Essa disparidade pode comprometer tanto a produtividade quanto a qualidade do atendimento.
Especializações em alta, mas lacunas precisam ser preenchidas
Atualmente, cerca de 27,6% dos dentistas possuem especializações, sendo as áreas mais comuns a Ortodontia, Implantodontia e Endodontia, com uma maior concentração no Sudeste e Sul do país. Apesar de um crescimento de 62% no número de especialistas de 2013 a 2024, algumas áreas cruciais para a saúde pública, como Patologia Oral e Prótese Bucomaxilofacial, ainda apresentam baixa oferta, evidenciando lacunas que necessitam de atenção.
Ações do governo para a saúde bucal
As ações do Ministério da Saúde em saúde bucal são organizadas pela Política Nacional de Saúde Bucal, conhecida como Brasil Sorridente, que garante atendimento odontológico gratuito por meio do Sistema Único de Saúde (SUS). Essa política abrange desde a Atenção Primária até serviços especializados e hospitalares.
A rede de serviços inclui equipes de saúde bucal nas Unidades Básicas de Saúde, Centros de Especialidades Odontológicas (CEO), Serviços de Especialidades em Saúde Bucal (Sesb), Laboratórios Regionais de Prótese Dentária (LRPD) e Unidades Odontológicas Móveis. Em 2024, a política recebeu o maior investimento de sua história, com foco na ampliação da cobertura e na qualificação da Rede de Atenção à Saúde Bucal (RASB).
Na Atenção Primária, as equipes realizam ações de promoção, prevenção e cuidado contínuo, incluindo aplicação de flúor, restaurações e extrações. Já os serviços especializados realizam procedimentos mais complexos, como endodontia, cirurgias e diagnósticos de câncer bucal. A rede também abrange a produção gratuita de próteses e o atendimento em áreas remotas, como comunidades indígenas e quilombolas.
Fortalecido pela Lei nº 14.572 em 2023, o Brasil Sorridente passou a ser uma política de Estado. Dentre as estratégias estão o Tratamento Restaurador Atraumático (TRA), a odontologia hospitalar e ações do Programa Saúde na Escola. Além disso, iniciativas de formação e capacitação profissional visam reduzir desigualdades regionais e ampliar o acesso à saúde bucal em todo o país.

