Movimento por Justiça Agrária em Maceió
Na noite de 1° de março, aproximadamente 800 camponeses de diversas organizações de luta pela terra ocuparam o prédio do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) em Maceió, Alagoas. O ato visava pressionar o governo federal a acelerar a desapropriação e destinação das terras das Usinas Laginha, que estão localizadas nos municípios de União dos Palmares e Guaxuma, em Coruripe. Essas áreas fazem parte da massa falida do latifúndio do Grupo João Lyra, conhecido por sua atuação no setor sucroalcooleiro.
Dentre os movimentos presentes na manifestação, destacam-se a Frente Nacional de Luta (FNL), o Movimento Terra e Trabalho (MTL), o Movimento de Libertação dos Sem-Terra (MLST), o Movimento Popular de Luta (MPL), a Comissão Pastoral da Terra (CPT), o Movimento Via do Trabalho (MVT) e o Terra Livre (TL).
Segundo informações de um camponês presente na manifestação, cerca de 3.000 famílias trabalham e residem nas terras da Usina Laginha há mais de 15 anos, com cadastro no estado e no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). Eles reivindicam o cumprimento de um acordo assinado em 2016 entre o governo de Alagoas e os camponeses, que até o momento permanece indefinido.
Reuniões e Expectativas Futuras
No dia seguinte, 2 de março, houve uma reunião entre os representantes dos movimentos e os responsáveis do MDA. Durante a conversa, foi informado que a retirada da reintegração de posse a favor do Grupo João Lyra só ocorreria caso os usineiros retirassem a solicitação. Essa declaração gerou indignação entre os camponeses, que decidiram permanecer acampados no MDA.
Na terça-feira, 3 de março, a equipe do AND esteve no local para acompanhar a situação dos camponeses. Em entrevista, um camponês expressou sua determinação: “Se as ações de reintegração de posse não forem suspensas, iremos permanecer aqui em Maceió. Hoje é um dia decisivo para nós.” Além disso, outra reunião está marcada para o dia 12 em Brasília, onde os movimentos sociais discutirão com o Ministro da Reforma Agrária a situação das terras da Usina Laginha.
Camponeses Preparados para a Resistência
Um dos camponeses presentes comentou sobre o clima tenso nas terras da Usina Laginha, mencionando rumores de que, se houver destruição das lavouras e expulso, a situação poderá culminar em um massacre. “Estamos aqui no MDA buscando uma solução para um conflito que se agrava diariamente,” afirmou ele.
Na manhã de 3 de março, os camponeses mantiveram o sit-in no MDA, exigindo uma resposta do governo. Após longo tempo de espera sem respostas, decidiram bloquear trechos da Avenida Fernandes para pressionar as autoridades pela suspensão das reintegrações de posse e a aceleração da reforma agrária.
Um cartaz exposto do lado de fora do MDA pedia diretamente ao governador Paulo Dantas que cumprisse o acordo de 2016 e destinasse as terras da Laginha e Guaxuma à reforma agrária.
Repressão e Resiliência Durante a Manifestação
O estado respondeu à mobilização com um forte aparato policial, incluindo cerca de 10 a 11 policiais militares e agentes do Departamento Municipal de Transporte e Trânsito (DMTT), demonstrando o receio diante da organização camponesa. Apesar disso, os manifestantes não se intimidaram. Um deles ironizou a presença policial: “Eles acham que o bambu que usamos para fechar a rua é uma bazuca!”
Por volta das 13h26, Jaime Messias Silva, responsável pelo Instituto de Terras e Reforma Agrária de Alagoas (Iteral), apareceu no protesto e pediu uma reunião com as lideranças. No entanto, foi recebido com gritos de “Mentiroso!” por alguns camponeses. A reunião com o Iteral prosseguiu até 14h11, após a qual os camponeses se reuniram para discutir os resultados.
Um participante da reunião relatou: “Depois de nosso acampamento no MDA, as negociações avançaram, mas não agradaram a todos. O que antes era um acordo de 3.500 hectares, agora aumentaram para 4.500 hectares, mas ainda há incertezas.”
A Luta Contra os Latifundiários
O Grupo João Lyra, fundado por um ex-deputado federal e um dos empresários mais ricos do Brasil, possui uma vasta gama de ativos, incluindo usinas de açúcar e etanol. O grupo enfrenta um longo processo judicial desde sua falência em 2014, que envolve disputas familiares e a ocupação de suas terras por camponeses que clamam por sua desapropriação.
Recentemente, o Grupo EQM, sob a presidência de Eduardo Queiroz Monteiro, firmou um acordo para arrendamento de 5.200 hectares das terras da antiga Usina Laginha. No entanto, o interesse por expandir o arrendamento para 13 mil hectares coloca em risco as famílias camponesas que já ocupam essas terras e reivindicam seus direitos.

