Fé e Cultura em Manifesto
No último sábado, dia 21 de março, o bairro histórico de Jaraguá, em Maceió, foi tomado por uma das mais impactantes manifestações de resistência cultural e religiosa da capital alagoana. O evento Xangô Rezado Alto percorreu as ruas, solidificando um ato de afirmação dos povos de terreiro, que uniram fé e cultura na luta pelo respeito e pelo direito à existência.
A data escolhida para a celebração, que coincide com o Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial e o Dia Nacional das Tradições das Raízes de Matrizes Africanas e Nações do Candomblé, conferiu ainda mais significado ao evento, transformando o espaço público em um verdadeiro território de memória, ancestralidade e enfrentamento ao racismo religioso.
Um Cortejo de Esperança e Cultura
Com o cortejo iniciando na Rua Sá e Albuquerque, rumo à Praça Dois Leões, dezenas de terreiros marcharam juntos em um poderoso manifesto coletivo contra a intolerância religiosa. O som vibrante de maracatus, capoeiras e bumbas meu boi envolveu o público, proporcionando uma experiência repleta de emoção e beleza, refletindo a força de um povo que resiste há séculos.
Pai Célio de Iemanjá, representando a Rede Alagoana de Povos e Comunidades Tradicionais, ressaltou a importância do momento. “Este é um momento de resistência. Estamos aqui para manter viva nossa fé, nossos costumes e garantir que nossos terreiros sejam respeitados como espaços de saber e de existência”, afirmou.
Protagonismo dos Terreiros Alagoanos
No palco montado para a ocasião, a programação reafirmou o protagonismo dos terreiros alagoanos, com apresentações de diversas atrações locais. Entre elas, destacaram-se o Afoxé Odô Iyá e Inaê, o Afoxé Oju Omin Omorewá, a Banda Afro Zumbi, o Samba de Magia e Axé, e o Samba de Roda K’Posú Betá. Todas essas expressões culturais, nascidas e desenvolvidas dentro dos terreiros, trazem consigo saberes ancestrais, espiritualidade e identidade em cada apresentação.
Um dos momentos mais emocionantes da festividade foi a performance da cantora pernambucana Gabi do Carmo, que trouxe ao palco o espetáculo “Terreirada da Benção”. A artista promoveu uma fusão entre os estados de Pernambuco e Alagoas, conectando os territórios por meio da fé, música e resistência.
Fortalecimento da Economia Criativa
Além das apresentações culturais, o evento ainda contou com barracas de afroempreendedores, que desempenharam um papel fundamental no fortalecimento da economia criativa. As barracas ofereceram produtos que refletem a identidade, história e tradição afro-brasileira, incluindo artesanato, acessórios e uma rica culinária.
Lucélia Silva, coordenadora municipal de Promoção da Igualdade Racial de Maceió, destacou a relevância do evento no combate ao racismo. “Quando o povo de terreiro ocupa as ruas, ele transforma consciências. Este movimento é uma forma de educação, de reparação e de construção de respeito”, enfatizou.
Uma Trajetória de Duas Décadas
A edição deste ano, que marca mais de 20 anos de celebração do Xangô Rezado Alto, reafirma o evento como um dos principais movimentos de valorização da cultura afro-brasileira em Maceió. Myriel Neto, presidente da FMAC, ressaltou a importância desse compromisso com a diversidade religiosa e cultural da cidade. “Celebrar 20 anos desse evento é reafirmar o respeito às nossas raízes e garantir que os povos de terreiro tenham seu espaço reconhecido e valorizado. Maceió é uma cidade plural, e a cultura afro-brasileira é parte fundamental da nossa identidade”, concluiu.

