Radar Meteorológico da Ufal acompanha El Niño em Alagoas
O alerta divulgado pela Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA) sobre o início do fenômeno El Niño chamou atenção dos pesquisadores, gestores públicos e órgãos de monitoramento climático no mundo todo. Em Alagoas, a Universidade Federal de Alagoas (Ufal), por meio do Sistema de Radar Meteorológico de Alagoas (Sirmal), acompanha de perto a evolução do evento e seus possíveis impactos nas chuvas, temperaturas e disponibilidade de água no estado.
Coordenado pela professora Luciene Melo, do Instituto de Ciências Atmosféricas (Icat), o radar instalado na Ufal permite a observação em tempo real dos sistemas de precipitação que atuam em Alagoas e regiões vizinhas. A estrutura é fundamental para o acompanhamento de eventos climáticos de curta duração, produção de dados científicos e apoio a instituições ligadas à previsão do tempo, defesa civil, recursos hídricos e gestão de riscos.
Alerta científico aponta El Niño forte para os próximos meses
De acordo com a professora Luciene, o alerta da NOAA é embasado tecnicamente e deve ser observado com atenção. A agência norte-americana indicou que o índice Niño 3.4 atingiu +0,7°C na primeira semana de junho, marca que caracteriza o estabelecimento do fenômeno. Para que o El Niño seja confirmado, as temperaturas da superfície do mar no Pacífico Equatorial central e oriental precisam se manter pelo menos 0,5°C acima da média durante vários meses consecutivos.
“A previsão aponta 63% de chance de evento muito forte no trimestre de novembro a janeiro, posicionando o fenômeno entre os mais intensos desde 1950. A probabilidade de permanência do El Niño é de 97% a 99% para todos os trimestres projetados, tornando a ocorrência praticamente certa”, explica a coordenadora.
Fenômeno global com efeitos locais modulados
Apesar da abrangência global do El Niño, a professora Luciene destaca que os efeitos no Nordeste brasileiro, e especificamente em Alagoas, são mediados por mecanismos atmosféricos conhecidos como teleconexões. O aquecimento anormal das águas do Pacífico altera gradientes de pressão, enfraquece a Oscilação Sul e reorganiza a circulação tropical, afetando o regime de chuvas em diferentes regiões.
No entanto, a intensidade desses impactos no Nordeste depende da interação com outros sistemas climáticos, especialmente as condições térmicas do Oceano Atlântico Tropical. “Quando o Atlântico Norte está mais frio que o Sul, a Zona de Convergência Intertropical (Zcit) posiciona-se mais ao sul, favorecendo as chuvas no Nordeste mesmo durante o El Niño. O contrário também é válido”, detalha a pesquisadora.
Redução das chuvas e aumento das temperaturas no Nordeste
Historicamente, episódios de El Niño estão associados a queda nas chuvas e elevação das temperaturas nas regiões Norte e Nordeste do país. O fenômeno tende a inibir a formação de nuvens profundas, favorecendo períodos de estiagem prolongada, diminuição da disponibilidade hídrica, queda nos níveis dos reservatórios e maior risco de queimadas.
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No Nordeste, os eventos fortes impactam especialmente a Quadra Chuvosa, que ocorre entre março e junho. Esse período é crucial para a recarga dos açudes e do solo no Semiárido. Chuvas abaixo da média nessa fase podem gerar consequências prolongadas, afetando a agricultura, abastecimento, pecuária e segurança alimentar.
“Safras de milho, feijão e algodão são as mais prejudicadas, com reflexos diretos na segurança alimentar. Em Alagoas, normalmente as chuvas ficam abaixo da média e as temperaturas acima do climatológico”, afirma Luciene.
Diferentes impactos nas regiões de Alagoas
Em Alagoas, o El Niño não afeta todas as regiões de forma igual. No Litoral e na Zona da Mata, o regime de chuvas está mais ligado à brisa marítima, distúrbios ondulatórios e sistemas frontais, conferindo uma certa resistência aos efeitos do fenômeno.
O agreste apresenta vulnerabilidade intermediária devido à sua estação chuvosa curta e irregular, o que pode amplificar os impactos em anos de forte influência do El Niño. Já o Sertão é a região mais exposta, pois depende quase exclusivamente da Quadra Chuvosa e do posicionamento da Zcit, sofrendo impactos mais severos em intensidade e duração.
“O El Niño desloca a Zcit para o norte e reduz a convecção, sendo o principal modulador da seca no Sertão. Porém, o Atlântico pode amenizar ou agravar essa situação, dependendo das condições térmicas do Atlântico Sul”, complementa a professora.
Desafios para o abastecimento hídrico nos próximos meses
Com a quadra chuvosa já encerrada, a principal preocupação para os próximos meses em Alagoas não é uma seca imediata, mas a falta de reposição hídrica. De julho a dezembro, período naturalmente menos chuvoso, o avanço do El Niño deve exigir atenção redobrada.
O pico do fenômeno está previsto para o intervalo entre outubro de 2026 e março de 2027, podendo atrasar o início das chuvas na pré-estação, especialmente entre novembro e dezembro. Essa situação pode comprometer o abastecimento e as condições hídricas para o ano seguinte.
“Além disso, é possível que ocorram veranicos mais frequentes e prolongados, prejudicando o desenvolvimento das lavouras, reduzindo a umidade do solo e aumentando a pressão sobre reservatórios e sistemas de abastecimento”, alerta Luciene.
Radar da Ufal é ferramenta essencial para monitoramento
O Sistema de Radar Meteorológico de Alagoas (Sirmal), operando em banda S, cobre um raio de aproximadamente 400 quilômetros a partir de Maceió, com cerca de 250 quilômetros para dados quantitativos. Esse monitoramento contínuo permite acompanhar os sistemas precipitantes em Alagoas e estados vizinhos.
No contexto do El Niño, o radar ajuda a identificar mudanças na frequência, organização e intensidade dos sistemas convectivos, como a redução dos distúrbios ondulatórios de leste, a diminuição das linhas de instabilidade e o enfraquecimento dos sistemas frontais que impactam a região.
Esses dados são fundamentais para decisões em diversas áreas da gestão pública. Na gestão de recursos hídricos, por exemplo, as informações alimentam modelos hidrológicos que orientam a operação de açudes e reservatórios. Na defesa civil, o monitoramento permite identificar eventos convectivos severos e riscos de alagamentos e deslizamentos, mesmo em anos de seca.
Além disso, o radar auxilia no acompanhamento da estiagem, oferecendo subsídios técnicos para decretos de emergência e acionamento de programas como o Garantia Safra. A parceria entre Sirmal e Cemaden integra dados locais a redes nacionais de monitoramento e alerta, enquanto convênios com a Semarh e a Defesa Civil reforçam a previsão e monitoramento de eventos de curto prazo.
O radar também funciona como laboratório para estudantes e pesquisadores da Ufal, promovendo a formação prática em meteorologia operacional, análise de imagens e monitoramento atmosférico.

