Transformação da Biblioteca do MTB
Nas entrelinhas de estantes repletas de documentos raros, a biblioteca do Museu Théo Brandão (MTB) atravessa um momento decisivo em sua trajetória de mais de cinco décadas. O espaço está passando por um abrangente processo de requalificação, que não se limita a mudanças estruturais, mas busca também redefinir a maneira como se preserva, acessa e compartilha o conhecimento e a memória alagoana.
Essa modernização vai além de um simples upgrade físico. O projeto representa um marco histórico na valorização do patrimônio documental e cultural, que inclui tudo, desde uma organização meticulosa do acervo até a digitalização futura, tornando informações acessíveis a pesquisadores de todas as partes do Brasil e do mundo.
A nova configuração permitirá que o acervo seja separado em diferentes categorias, como documentação, bibliografia, material fotográfico, sonoro e tridimensional. Essa abordagem garante uma organização mais precisa e facilita o acesso a conteúdos que vão desde o rico folclore local até documentos de relevância nacional.
Inovação e Preservação: O Papel do Sistema Tainacan
Outro aspecto inovador da requalificação é a implementação do sistema Tainacan, que possibilitará a digitalização e a consulta remota dos documentos. Essa tecnologia visa minimizar o manuseio físico dos materiais, ajudando a preservar documentos que são extremamente sensíveis ao tempo e ao uso.
Cuidado com Documentos Únicos
Importante frisar que a maior parte do acervo é composta por documentos frágeis e muitos deles são únicos. As fitas cassetes e papéis antigos, por exemplo, requerem cuidados especiais para evitar a deterioração. Hildênia Oliveira, diretora do museu, enfatiza a importância da preservação ao afirmar: “O ideal é que o material esteja o mais estabilizado possível, pois cada manuseio pode causar perda de fragmentos”. A estratégia de preservação inclui restrições no acesso a certos materiais, além do uso de equipamentos de proteção, como luvas e máscaras.
Para garantir melhores condições de armazenamento, parte do acervo já está acondicionada em invólucros plásticos, e novos materiais especializados estão em fase de aquisição. As melhorias previstas incluem estantes deslizantes sobre trilhos e caixas de conservação permanentes, que irão acomodar mais de 200 conjuntos documentais, englobando cerca de 8 mil documentos. A diretora não esconde a empolgação: “O que parecia inalcançável, hoje estamos vivendo na prática”.
Um Trabalho Silencioso e Necessário
Apesar da grandiosidade do acervo, o trabalho de requalificação ocorre muitas vezes de forma discreta, longe dos olhos do público. “É um trabalho de formiguinha, silencioso e, muitas vezes, solitário. Por isso, é fundamental dar visibilidade ao que está sendo feito”, observa a diretora. Esse esforço é possibilitado por recursos provenientes do edital da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, evidenciando a relevância das políticas públicas para a cultura e a pesquisa.
O Papel das Bibliotecárias na Requalificação
A organização de uma biblioteca em um museu vai muito além de simplesmente arrumar livros nas prateleiras. Envolve processos meticulosos como higienização, catalogação e classificação de documentos. Janaina Xisto Lima Soares, bibliotecária com mais de 20 anos de experiência, esclarece: “Nós trabalhamos na organização e catalogação de documentos, apoiando pesquisadores, estudantes e visitantes. Também atuamos na preservação e digitalização”. Ela enfatiza que preservar documentos é, na verdade, preservar identidades e conhecimentos que definem a história de um povo.
Tesouros Emocionais e Histórias da Comunidade
O acervo não se limita a documentos acadêmicos; ele também abriga tesouros emocionais. O material sonoro, por exemplo, contém 177 fitas cassetes que guardam vozes e relatos de memórias esquecidas. Janaina compartilha uma experiência pessoal: “Encontrei parte da minha história aqui dentro. Ouvi relatos da minha família que eu não conhecia. Sem esse acervo, essas memórias teriam se perdido”. Esse depoimento ressalta a importância do museu como guardião não só da história oficial, mas também dos relatos íntimos que compõem a identidade alagoana.
A biblioteca do museu, integrada ao sistema de bibliotecas da UFAL, é um espaço único que reúne conhecimento acadêmico e expressões culturais que refletem a identidade de Alagoas. “O museu é a casa da família alagoana”, acredita a equipe.
Um Compromisso com o Futuro
A requalificação da biblioteca ocorre em um mês simbólico, que celebra o Dia do Bibliotecário e o Mês da Mulher, homenageando as profissionais que garantem a preservação da memória com dedicação e conhecimento. A expectativa é que, até julho, muitos dos aprimoramentos já estejam em funcionamento. Mais que uma melhoria estrutural, este esforço é um compromisso com o futuro, um investimento em cultura e acesso ao conhecimento, ressaltando que, por trás de cada documento preservado, há um trabalho humano essencial e cuidadoso.

