Documentário Revela Ações em Maceió
O afundamento de cinco bairros em Maceió, resultado da mineração do sal-gema no subsolo da cidade, é considerado um dos mais significativos desastres ambientais urbanos do Brasil. Essa tragédia afetou mais de 60 mil moradores que, abruptamente, se viram obrigados a abandonar suas residências. Contudo, a perda não se restringiu a bens materiais; histórias, memórias, laços comunitários e expressões culturais singulares foram devastados, resultando em um trauma coletivo que permeia toda a capital alagoana.
O trabalho para reconstituir esses laços, recuperar tradições interrompidas e restabelecer a identidade da cidade é uma das metas do Ministério Público Federal (MPF). Desde o surgimento do problema, o MPF tem atuado com ações judiciais e extrajudiciais, visando garantir que a Braskem, a empresa responsável pela exploração do sal-gema, promova a reparação dos danos causados à população local. A busca por reparação dos danos extrapatrimoniais é o foco do documentário “Além do Afundamento – A Memória Persiste”, produzido pela SET Produções com a supervisão da Secretaria de Comunicação Social do MPF.
Preservando a Cultura e a História
Já disponível no canal do MPF no YouTube, o documentário de 22 minutos registra a mobilização de moradores das áreas impactadas, procuradores da República e especialistas empenhados em proteger a cultura, a história e os direitos das comunidades afetadas. Por meio de relatos e depoimentos, o filme mostra a realidade do grupo cultural Coco de Roda Reviver, que, antes da interdição da Praça Lucena Maranhão, no bairro Bebedouro – um dos mais antigos de Maceió – utilizava o espaço para ensaios. Atualmente, os integrantes foram deslocados para bairros distantes, mas continuam mantendo viva a tradição, ao contrário de muitos outros coletivos culturais que se viram obliterados.
Um acordo socioambiental firmado em 2020 entre o MPF e a Braskem estabelece uma série de medidas, incluindo a destinação de R$ 150 milhões ao longo de quatro anos para projetos de reparação dos danos coletivos. Esse pacto resultou no lançamento do programa Nosso Chão, Nossa História, que visa uma gestão participativa, estimulando o protagonismo dos atingidos, com apoio do Escritório das Nações Unidas de Serviços para Projetos (Unops/ONU). O programa foca no fomento a iniciativas ligadas à cultura, saúde mental, economia local e fortalecimento da comunidade como estratégia para reconstruir o tecido social que foi comprometido.
Ações Sociourbanísticas e Preservação da Memória
O documentário também aborda um plano de ações sociourbanísticas, que compreende mais de 40 medidas de compensação. Essas ações visam não apenas recompor a mobilidade urbana, afetada pela interdição de bairros inteiros, mas também garantir a construção de equipamentos públicos nos locais que abrigam os moradores deslocados. O trabalho inclui a criação do Inventário Participativo do Patrimônio Imaterial de Maceió, um projeto em parceria com a Universidade Federal de Alagoas, que já entrevistou mais de 300 fazedores de cultura e identificou 470 locais de referência de memória coletiva nas áreas impactadas.
O documentário sublinha a força da memória coletiva e o papel ativo dos moradores na proteção do que consideram mais valioso: sua identidade. Através dessas iniciativas, Maceió busca reerguer não apenas sua infraestrutura urbana, mas também a rica tapeçaria cultural que foi ameaçada pelo desastre ambiental.

