O papel das mulheres no cooperativismo alagoano
A história do cooperativismo é repleta de pioneirismo feminino, destacando nomes como Eliza Brierley, reconhecida como a primeira mulher a integrar uma cooperativa de consumo no mundo, em 1844. Em Alagoas, esse protagonismo feminino está em crescimento, evidenciado por cooperativas que reúnem somente mulheres, como a Cooperativa de Artesanato da Barra Nova (Cooperartban) e a Cooperativa de Marisqueiras Mulheres Guerreiras (Coopmaris).
A trajetória da Cooperartban representa uma combinação de tradição e a presença marcante de mulheres, centrada em um dos símbolos culturais do estado: o bordado filé. A cooperativa surgiu com o intuito de criar oportunidades de trabalho e renda para mulheres artesãs na comunidade de Marechal Deodoro, ao mesmo tempo em que preserva essa rica tradição.
O impacto do papel feminino no cooperativismo local é significativo. Dados do AnuárioCoop 2025 indicam que, em Alagoas, as mulheres compõem mais de 42% dos cerca de 95 mil cooperados, com uma presença notável nos setores de Crédito, Trabalho, Produção de Bens e Serviços, Agropecuário e Saúde. Atualmente, aproximadamente 27% das mais de 100 cooperativas do estado são lideradas por mulheres, um número que ainda representa um desafio a ser superado.
Cooperartban: tradição e inovação no artesanato
Na Cooperartban, 15 artesãs formam o núcleo da cooperativa. Muitas delas iniciaram suas jornadas no cooperativismo inspiradas por memórias familiares, perpetuando os ensinamentos de mães e avós que já praticavam o bordado filé. A técnica é aprendida na prática, aliando tradição e inovação.
Com orientação, capacitações, assistência técnica e parcerias estratégicas, a Cooperartban já comercializa seus produtos em diversas feiras e eventos em todo o país, além de contar com uma loja própria. Esse movimento permitiu à cooperativa diversificar suas peças, valorizar a produção artesanal e expandir sua presença no mercado.
Recentemente, a cooperativa foi agraciada com o Prêmio Sérgio Mamberti, uma iniciativa do Ministério da Cultura (MinC). No final do ano passado, lançaram sua primeira coleção de moda, intitulada “Cartografias do Invisível”, desenvolvida no Laboratório de Inovação Artesanal da Rede Artesol (LAB 2025). Essa coleção tem o objetivo de unir tradição, inovação, impacto social e sustentabilidade.
A visibilidade da produção alagoana
O catálogo lançado em São Paulo proporcionou uma visibilidade significativa à produção alagoana, resultado de trabalho árduo e dedicação. Para este ano, a cooperativa já se inscreveu em editais e participará de feiras, como a ArtNor, além de ter eventos agendados em Brasília e desenvolver um projeto de moda em Marechal Deodoro, onde sua história começou.
“Estamos sempre prontas para aproveitar cada oportunidade, cada parceria e convite. O artesanato nos uniu como mulheres, permitindo que cresçamos, mas sempre lembrando nossas raízes”, compartilha Wendy Sherry, cooperada da Cooperartban.
Wendy, que aprendeu o ofício com mulheres da Barra Nova, também transmitiu seu conhecimento à matriarca Lindinalva Oliveira, atual presidente da Cooperartban. “O artesanato é parte da história da minha família, e a conexão que estabelecemos fortaleceu não apenas a nossa relação, mas também a nossa comunidade”, afirma.
Coopmaris: da informalidade à organização
A Coopmaris, localizada às margens da Lagoa Mundaú, em Maceió, surgiu como uma resposta à informalidade enfrentada pelas marisqueiras, buscando ampliar suas oportunidades. Com mais de 40 mulheres cooperadas, a cooperativa se dedica a manter viva a tradição da pesca e promover a reinvenção de suas atividades.
Vanessa Silva, presidente da Coopmaris, destaca como o cooperativismo trouxe reconhecimento e novas possibilidades. “Ganhamos visibilidade e acesso a capacitações e projetos que são fundamentais para o nosso crescimento”, comenta. Um exemplo de sucesso é a capacitação oferecida pelo Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo em Alagoas (Sescoop/AL), que diversificou o portfólio da cooperativa, antes focado apenas no sururu.
A produção agora inclui itens como biscoitos e caldinhos de sururu, além de croquetes congelados, aumentando assim suas oportunidades de mercado. “Estamos determinadas a expandir nosso alcance e sustentar nossas famílias. A força da união é o que nos motiva diariamente”, finaliza Vanessa.
Um futuro promissor para o cooperativismo feminino
O superintendente do Sescoop/AL, Adalberon Sá Júnior, ressalta a importância do protagonismo feminino no fortalecimento do cooperativismo e desenvolvimento das cooperativas. “Iniciativas que promovem lideranças femininas são essenciais para criar um mercado mais igualitário”, afirma.
Desde o ano passado, o Sescoop/AL implementa ações voltadas para mulheres no cooperativismo, incluindo o Seminário de Diversidade e a criação do Comitê Estadual Elas pelo Coop. Um exemplo de ação do comitê será o primeiro Encontro de Mulheres do Cooperativismo Alagoano, marcado para 25 de março, em Maceió, que discutirá o papel feminino no cooperativismo.
O evento contará com palestras, painéis e um desfile, homenageando as produções de cooperativas como a Cooperartban e a ArtIlha, que se destacam nacionalmente.
As inscrições para o encontro podem ser feitas através do link disponível, proporcionando um espaço para troca de experiências e fortalecimento de lideranças femininas no setor cooperativista.

