A Celebração do Design com Raízes Indígenas
A Poltrona Ariranha, que se inspira na cultura indígena da aldeia Kaupüna, localizada no Alto Xingu, em Gaúcha do Norte, a 571 km de Cuiabá, conquistou o prêmio de Melhor Design de Produto no Créateurs Design Awards 2026, uma renomada premiação internacional que valoriza a inovação no design contemporâneo. O evento ocorreu em janeiro, na vibrante cidade de Paris, França.
Desenhada pela talentosa designer Maria Fernanda Paes de Barros, de 56 anos, em colaboração com o indígena Kawakanamu Mehinaku, de 64 anos, responsável pela máscara que adorna a poltrona, a obra é um exemplo de como o design pode dialogar com as culturas locais. Os artesãos José Augusto Rodrigues e David Garcia também participaram da produção, cuidando do encaixe do encosto da cadeira.
Maria Fernanda, em entrevista ao g1, revelou que sua trajetória no design de interiores a levou a um novo caminho em 2014, quando decidiu fundar seu próprio estúdio e focar em projetos que valorizam a riqueza cultural indígena. “Desde então, venho utilizando o design como uma plataforma para destacar o artesanato brasileiro e suas tradições. Anualmente, visito comunidades para desenvolver projetos e técnicas em conjunto”, compartilhou a designer.
Uma Conexão Profunda com a Cultura Indígena
A designer conheceu a aldeia Kaupüna em 2019, através de um amigo, Kulikyrda Mehinaku, de 40 anos, filho do cacique Yahati Mehinaku, de 71 anos. A partir dessa primeira visita, começou a trabalhar em projetos colaborativos que envolvem a produção local. Em uma de suas idas à aldeia, Maria se deparou com a máscara feita ali e decidiu incorporá-la em suas criações. “Fiquei fascinada pela máscara e aprendi com a comunidade sobre sua confecção, o que me inspirou a apresentar essa peça no Creators Design Awards”, destacou.
O artesão Kawakanamu Mehinaku, responsável pela máscara da poltrona, reforçou a importância desse tipo de colaboração. “A máscara Ariranha é significativa em nossos rituais de cura, sendo parte da nossa cultura e tradição. Para nós, cada peça conta uma história”, explicou.
Um Reconhecimento que Transcende Fronteiras
Este prêmio é apenas o segundo conquistado por Maria Fernanda por sua dedicação em valorizar a cultura indígena. “Estou extremamente feliz, pois essa conquista é uma forma de propagar a cultura indígena internacionalmente e de ressaltar a importância de preservar os saberes ancestrais. Isso ajuda a expandir o conhecimento sobre nossa cultura, promovendo respeito e valorização”, afirmou.
A Poltrona Ariranha é composta por uma estrutura de madeira freijó, produzida por artesãos luthiers do interior de São Paulo. A máscara, que serve de encosto para a poltrona, foi confeccionada na aldeia por Kawakanamu e enviada para ser encaixada na peça. O resultado é uma harmonia entre as técnicas tradicionais indígenas e o design contemporâneo, criando uma obra que é não apenas um móvel, mas um símbolo cultural.
Kulikyrda Mehinaku ressaltou que a máscara Ariranha remete a um ritual profundo: “Quando alguém fica doente, o pagé realiza uma cerimônia para identificar o espírito causador do problema. A família do doente oferece alimentos como mingau e sopa de pimenta para apaziguar o espírito, reunindo a comunidade em torno desse ritual”. Ele acrescentou que, após a recuperação do paciente, a máscara é confeccionada e apresentada em um novo ritual, encerrando o ciclo de cura.
“Para a máscara que compõe a Poltrona Ariranha, não houve relação com doenças; foi feita exclusivamente para o design”, afirmou Mehinaku. Assim, a peça não apenas embelleza, mas carrega consigo uma rica história e um profundo significado cultural.
Durante suas visitas e projetos culturais na aldeia Kaupüna, a designer Maria Fernanda Paes de Barros teve a oportunidade de se imergir na cultura local, fortalecendo seu trabalho e sua conexão com as tradições indígenas. Essa relação profunda resultou em uma obra que, além de ser reconhecida internacionalmente, se torna um elo entre passado e presente, entre a tradição e a modernidade.

