Análise da Polarização Política nas Eleições de 2024
Quatro anos após a eleição considerada a mais polarizada da história brasileira, os eleitores se preparam para novamente ir às urnas em outubro. O pleito decidirá quem será o novo presidente do Brasil em 2027. Em 2022, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL) se enfrentaram em um acirrado segundo turno, no qual Lula saiu vitorioso com uma margem de apenas 2,1 milhões de votos.
Com Bolsonaro agora inelegível devido a sua condenação por liderar um plano de golpe, a principal candidatura da direita se volta para o senador Flávio Bolsonaro (PL), escolhido por seu pai como sucessor. Por outro lado, Lula ainda não confirmou oficialmente sua intenção de concorrer à reeleição, mas já deixou claro que pretende disputar novamente.
Cientistas políticos, ao analisarem o cenário atual, indicam que a polarização deve continuar a ser uma característica marcante do pleito. Cláudio Couto, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), ressalta que “a polarização se instalou na política brasileira e não é um fenômeno passageiro. Essa característica veio para ficar e conviveremos com ela por um longo tempo”.
Segundo Couto, a polarização não é uma novidade na política nacional, tendo aparecido desde os tempos em que o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) disputavam as eleições. O especialista acrescenta que a diferença atual está na radicalização da direita, que ampliou a distância entre os dois polos políticos. “Do lado esquerdo, nada mudou. O PT continua sendo a única voz representativa”, afirma.
O professor aposentado Carlos Ranulfo Melo, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), reforça essa análise ao mencionar a ideia de “rejeição cruzada”, onde eleitores petistas se posicionam contrários a Bolsonaro e vice-versa. Contudo, Ranulfo observa que “o bolsonarismo está enfraquecido em comparação a 2022”, citando dois fatores que sustentam sua argumentação: a redução da mobilização popular e a divisão das candidaturas à direita.
“A direita, neste momento, conta com mais de um potencial candidato, o que é significativo. Embora a candidatura de Flávio Bolsonaro possa não vingar, há outros candidatos com intuito de conquistar o eleitorado de direita”, explica. Recentemente, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, anunciou sua adesão ao PSD, que agora conta com três nomes viáveis para a presidência, incluindo os governadores Eduardo Leite (Rio Grande do Sul) e Ratinho Junior (Paraná). A definição do candidato do PSD está prevista para abril.
Além do PSD, o partido Missão, vinculado ao Movimento Brasil Livre (MBL), também anunciou sua intenção de lançar um candidato à presidência, buscando se posicionar como uma alternativa à direita não alinhada com Bolsonaro.
Apesar de concordar que a provável confirmação das candidaturas de Lula e Flávio resultará em um pleito polarizado, o professor Bruno Bolognesi, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), acredita que há espaço entre a população para um discurso conciliador. “Existem muitos eleitores que não se encontram na polarização e há também um considerável número de pessoas apáticas, o que pode ser benéfico para a democracia. Assim, é possível que uma candidatura desse tipo prospere, ainda que não tenha espaço no sistema partidário predominante”, pondera.
Couto também valida a dificuldade de uma terceira via emergir neste cenário. Para ele, “é improvável que tal candidatura tenha competitividade”. Ranulfo é ainda mais enfático, considerando inviável a presença de um candidato central: “Atualmente, o centro político está completamente fragilizado”.
Além da presidência, os brasileiros também terão que escolher novos governadores, senadores, deputados federais e estaduais este ano, com o primeiro turno das eleições programado para o dia 4 de outubro.

