Eleições mostram a disparidade de gênero na política alagoana
Embora no papel as mulheres compõem a maior parte do eleitorado em Alagoas, os dados das últimas eleições municipais expõem uma realidade preocupante: a sua participação nos espaços de poder continua bastante limitada. Em 2024, por exemplo, as mulheres representaram aproximadamente 33% das candidaturas, mas apenas conseguiram 18% dos votos nominais para a Câmara Municipal.
O contraste entre o número de eleitoras e a quantidade de eleitas é evidente. Dados da Justiça Eleitoral mostram que Alagoas possui 1.277.333 mulheres aptas a votar, correspondendo a cerca de 54% dos 2,38 milhões de eleitores no estado. Ou seja, enquanto as mulheres se destacam como maioria no eleitorado, sua representação entre os eleitos é alarmantemente minoritária.
Esse cenário revela que, mesmo após a implementação de políticas como a cota mínima de candidaturas por gênero, as barreiras estruturais à presença feminina na política ainda são uma realidade a ser superada.
Presença nas prefeituras: crescimento, mas ainda aquém
No contexto das eleições municipais de 2024, 50 mulheres se candidataram a prefeituras em Alagoas, sendo que 24 delas foram eleitas. Em contraste, 210 homens se candidataram, e 78 foram eleitos. Isso resulta em cerca de 23% dos prefeitos eleitos no estado sendo mulheres, um aumento em relação a anos anteriores, mas ainda distante do ideal que refletiria o peso do eleitorado feminino.
Câmaras municipais seguem com maioria masculina
O quadro se torna ainda mais desalentador nas câmaras municipais. Em 2024, 1.840 mulheres disputaram cadeiras de vereadoras, mas apenas 187 lograram êxito nas eleições. Entre os homens, foram 3.470 candidatos, com 903 eleitos. Isso significa que, dos 1.090 vereadores eleitos no estado, apenas 17% são mulheres.
A diferença se reflete também nos votos: no pleito proporcional de Alagoas, as candidatas do sexo feminino receberam 326.751 votos nominais, representando 17,78% do total, enquanto os homens concentraram 82,22% da votação.
Desigualdade é um padrão nacional
Essa realidade de sub-representação se estende para o cenário nacional. Em todo o Brasil, em 2024, 728 mulheres foram eleitas prefeitas, em comparação com 4.756 homens, resultando em apenas 13% das prefeituras sendo comandadas por mulheres. Nas câmaras municipais, das mais de 58 mil vagas disponíveis, pouco mais de 10 mil foram conquistadas por mulheres, totalizando menos de 20% do total. Os votos também refletem essa disparidade: cerca de 21,9% dos votos para vereador foram destinados a candidatas, enquanto mais de 78% foram para homens.
Congresso Nacional: um reflexo da desigualdade
No Congresso Nacional, a situação é semelhante. Atualmente, há 91 deputadas federais, o que representa cerca de 17,7% das 513 cadeiras na Câmara. No Senado, as 15 senadoras correspondem a aproximadamente 18,5% do total. Apesar de ser o maior número de mulheres na história do Parlamento brasileiro, essa participação ainda está aquém da média global, que ultrapassa 26%.
Avanços tímidos em Alagoas
Apesar dos desafios enfrentados nas eleições, Alagoas tem demonstrado avanços em alguns setores. No âmbito do governo estadual, a maioria das secretarias é composta por mulheres. Na Assembleia Legislativa, a presença feminina aumentou, com seis deputadas, um número considerado recorde para o estado. Em Maceió, a Câmara Municipal conta com quatro vereadoras entre os 27 parlamentares.
Iniciativas como o programa “Mulheres: Raízes da Resistência” também têm sido implementadas, visando promover o protagonismo feminino na agricultura familiar e em grupos produtivos.
Desafios persistem para a representação feminina
Os dados apontam que a questão vai além da simples participação eleitoral; as condições para a disputa são também desiguais. Apesar da obrigação legal que determina que pelo menos 30% das candidaturas sejam femininas, muitas mulheres ainda enfrentam obstáculos relacionados a financiamento, visibilidade e suporte dentro das estruturas partidárias. Além disso, existe um forte fator cultural: a política brasileira, historicamente, é vista como um espaço predominantemente masculino. O resultado é um cenário em que, embora as mulheres votem mais, elas são eleitas em menor número.
No Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, essa discussão volta a ser amplamente abordada. Em Alagoas, onde as mulheres são maioria entre os eleitores, seu potencial político é evidente. A disparidade entre votos e representação revela que ainda há muito a ser feito. Com os números em mãos, parece que a evolução é apenas uma questão de tempo e de oportunidades.

