Proposta de Mudança de Nome
O desembargador do Tribunal de Justiça de Alagoas (TJ-AL), Tutmes Airan, apresentou uma proposta que pode mudar o nome da Avenida Fernandes Lima, uma das principais artérias de Maceió. Essa sugestão surge em decorrência do histórico do político e advogado Fernandes Lima, que é considerado um dos principais responsáveis pela “Quebra de Xangô”, um episódio marcado pela intolerância religiosa no Brasil.
Em uma publicação feita nas redes sociais no último domingo, dia 1, véspera do 114º aniversário do evento, o magistrado expressou sua indignação. “Este episódio nefasto ficou conhecido como o Quebra de Xangô, e teve Fernandes Lima como um de seus maiores responsáveis. E é este mesmo Fernandes Lima, com histórico marcado por intolerância religiosa, violência e oportunismo político, o homenageado com o nome de uma das maiores avenidas da capital alagoana”, declarou Tutmes.
De acordo com Tutmes, a Coordenadoria de Direitos Humanos do TJ-AL se reuniu nesta segunda-feira, 2, com o Defensor Público Geral do Estado, Fabrício Leão Souto, para discutir a entrega de uma Nota Técnica que analisa a alteração de nomes de ruas e logradouros públicos que prestem homenagem a Fernandes Lima. Ele enfatizou a necessidade de reavaliar essas homenagens em um contexto de respeito e igualdade religiosa.
O desembargador também ressaltou a urgência de ações que corrijam injustiças históricas. “A Justiça histórica vem, na maioria das vezes, bem tarde. Ainda pior do que tardar, é quando ela nunca chega ou quando não se reconhece a urgência de realizá-la o quanto antes”, concluiu ele.
Histórico da Quebra de Xangô
O que é a Quebra de Xangô? Esse episódio, ocorrido em 1912, na madrugada de 1 para 2 de fevereiro, resultou na destruição de mais de 150 terreiros de religiões de matriz africana em Maceió. Naquele momento sombrio, objetos litúrgicos foram queimados em praça pública, enquanto religiosos eram perseguidos, agredidos e presos de maneira arbitrária.
Fernandes Lima estava no centro desse tumulto, sendo um dos principais integrantes da Liga dos Republicanos Combatentes, um grupo que, sob sua liderança, foi apontado como responsável pela Quebra de Xangô. Curiosamente, ninguém foi julgado ou condenado pelo que ocorreu durante aquele episódio fatídico. Na época, Fernandes Lima exercia a função de deputado estadual e, posteriormente, ocupou cargos de vice-governador, deputado federal e senador. Além disso, o nome dele foi escolhido para dar nome à principal via da capital alagoana, que agora está sob discussão.
A proposta de mudança do nome da Avenida Fernandes Lima vem à tona em um momento em que sociedades buscam cada vez mais refletir sobre suas histórias e homenagens, questionando se essas figuras realmente refletem os valores e ideais contemporâneos de respeito e diversidade religiosa. A iniciativa do desembargador Tutmes Airan poderá abrir um debate essencial sobre a memória histórica e a construção da cidadania em relacionamentos inter-religiosos no Brasil.

