Moda Autoral: Um Diferencial em Alagoas
No coração de Alagoas, o calor intenso deixou de ser apenas uma característica climática e se transformou em uma verdadeira estratégia de mercado para empreendedores da moda autoral. O cenário atual, que une a alta temperatura, mudanças no comportamento dos consumidores e uma forte valorização da identidade local, tem sido um motor para a criação de produtos mais funcionais, sustentáveis e que se adaptam à rotina das pessoas. Para muitos empreendedores, essa condição climática virou um diferencial competitivo e um catalisador de crescimento.
De acordo com dados do Sebrae, o setor de moda continua sendo uma das áreas mais significativas dentro da economia criativa no Brasil. Nesse contexto, destaca-se a predominância de micro e pequenas empresas. Somente em 2025, foram abertas mais de 1.800 novas empresas no segmento de vestuário e acessórios. No cenário pós-pandemia, a relação do consumidor com moda se transformou, priorizando conforto e funcionalidade em detrimento de tendências passageiras.
A Importância da Identidade Cultural
Marina Gatto, analista do Sebrae Alagoas, ressalta que a moda autoral e o artesanato desempenham um papel chave no desenvolvimento econômico dos territórios. “Quando o empreendedor transforma a identidade cultural em produto, ele não apenas gera renda, mas também fortalece comunidades e cria negócios com valor agregado”, afirma.
Na Barra de São Miguel, uma das localidades mais encantadoras do litoral sul, encontramos Shirley Alencar, que fundou o Shiá Studio. Ela é uma empreendedora que se destaca pelo uso de cascas de mariscos, conchas e palhas em seus acessórios feitos à mão. Para Shirley, o verão é a temporada mais intensa em termos de produção e vendas.
“O calor me inspira a criar peças leves e frescas, com cores que lembram o mar e a areia. É crucial que tudo seja confortável e se adapte ao nosso clima”, compartilha. Além disso, a escolha dos materiais reflete um compromisso ambiental. “As conchas que muitas vezes acabam como lixo carregam uma história. Transformá-las em acessórios é uma forma de dar valor ao que vem da nossa terra”, ressalta Shirley.
Para ela, a inovação na moda autoral não implica romper com o passado, mas sim ressignificá-lo. “A verdadeira inovação está em fazer diferente utilizando o que já existe. Por exemplo, pegamos técnicas antigas como o macramê e criamos peças novas, carregadas de significado, demonstrando que o artesanal ainda possui um grande valor”, conclui.
O Mercado Masculino em Ascensão
Outro exemplo de sucesso é a marca Fire, que surgiu em Maceió em 2018, sob a liderança de Julio César Badu Lima. Proveniente de uma família com longa tradição no setor de confecção, Julio identificou uma lacuna no mercado de moda masculina. Ele percebeu que faltava uma marca voltada para homens jovens, com roupas leves, confortáveis e que se conectassem ao estilo de vida do litoral.
Começando com shorts estampados, a marca ampliou seu portfólio para incluir peças casuais e sociais, sempre com a prioridade no conforto e na respirabilidade. O linho se tornou um dos principais materiais utilizados. “Aqui no Nordeste, o linho é sempre uma boa escolha. Esse tecido é fresco e elegante, ideal para o dia a dia. Produzimos internamente, o que nos permite manter preços competitivos e adaptar rapidamente às tendências”, explica Julio.
A Fire colheu os frutos desse posicionamento digital. “Enquanto muitos precisaram se reinventar, nós já estávamos inseridos no e-commerce e nas redes sociais”, pontua. Atualmente, a empresa apresenta um crescimento médio de 40% no faturamento de 2023 em relação a 2024, com projeções que podem alcançar até 100% de crescimento em dezembro de 2025, impulsionada pela alta estação e pela abertura de uma nova loja.
O Clima como Ativo Estratégico
A estilista e consultora de moda Manu Melo, que trabalha com gestão estratégica de marcas autorais, enfatiza que a inovação deve ir além das tendências de moda e se concentrar no comportamento do consumidor. “O pequeno empreendedor possui uma vantagem competitiva nesse contexto. Temos a flexibilidade de recalcular a rota a todo momento. A inovação hoje envolve observar a sociedade e entender como as pessoas estão vivendo”, observa Manu.
Ela também destaca que o consumidor contemporâneo está valorizando peças funcionais, adequadas para o cotidiano. “As pessoas estão repensando suas rotinas e priorizando o dia. Portanto, a moda precisa acompanhar essa mudança, oferecendo roupas que funcionem tanto para um café, quanto para o trabalho”, explica.
O clima quente de Alagoas é visto como um ativo estratégico. “Tecidos naturais, como o linho, proporcionam uma vantagem competitiva. Muitas vezes, se subestima que roupas sem mangas são mais frescas, mas dependendo do material, podem acabar sendo menos confortáveis que peças de manga longa feitas de tecidos naturais”, finaliza.
Por fim, o Sebrae continua a oferecer consultorias e capacitações em gestão, finanças, posicionamento de marca e relacionamento com o cliente, apoiando micro e pequenos empreendedores e ajudando a transformar criatividade em negócios sustentáveis. No segmento de moda, compreender o comportamento do consumidor e estruturar o negócio se torna tão vital quanto a própria oferta de produtos. Em Alagoas, o calor tem reforçado essa dinâmica, ampliando as oportunidades para quem empreende com planejamento e apoio especializado.

