Protagonismo feminino e crítica ao descaso cultural
Em sua estreia em Maceió, a rapper mc luanna destacou a presença marcante de mulheres no palco, na produção e entre o público do Delas Festival, evento que evidencia o protagonismo feminino na cena musical local. No entanto, esse espaço conquistado foi acompanhado de uma crítica contundente da artista à falta de apoio público à cultura na capital alagoana.
“Em uma cidade onde sucateiam a cultura, ver mulheres trazendo essa narrativa e essa importância é aliviador. Seja na produção, na cultura ou entre outros artistas que também sonham estar aqui”, afirmou MC Luanna, que encerrou a primeira edição do festival no Rex Jazz Bar, no bairro de Jaraguá, durante a passagem da turnê “IRREFREÁVEL” pelo Nordeste. O repertório reuniu faixas da mixtape homônima, lançada em 2025.
Trajetória e desafios da artista independente
Natural da Bahia e radicada em São Paulo, MC Luanna ganhou visibilidade durante a pandemia da Covid-19 publicando vídeos caseiros com músicas autorais nas redes sociais. O sucesso inicial abriu caminho para hits como “Kit Rosa” e “Bonde da Hello Kitty” e projetos de alcance nacional.
Entre seus trabalhos estão “44”, que explora a dualidade entre vida pessoal e carreira, e “Sexto Sentido”, considerado um dos projetos mais amadurecidos da rapper. Além disso, ela expandiu sua presença no rap com colaborações importantes, como “99 Problemas”, com Duquesa, e “NÃO ADIANTA ME LIGAR”, com BUDAH.
Após o show, MC Luanna conversou com o CadaMinuto e refletiu sobre as dificuldades enfrentadas por artistas independentes, especialmente aqueles que constroem carreira fora do eixo Rio-São Paulo. Para ela, a cultura exige mais do que talento: é necessário investimento em formação, espaços para produção e oportunidades que alcancem tanto músicos quanto profissionais dos bastidores.
Construindo uma rede de apoio e resistência
“Você tem 200 letras na sua casa, mas como fazer esse movimento de onde produzir e como produzir? Eu acho que cada estado sofre muito com isso também”, comentou a rapper, ressaltando a importância de formar um público que consuma e divulgue a produção local. Ainda assim, ela aponta que o apoio dos ouvintes não é suficiente para superar todos os desafios de uma carreira musical.
MC Luanna destaca a falta de recursos financeiros e a ausência de uma rede profissional organizada como obstáculos centrais para artistas independentes, que enfrentam custos de gravação, deslocamentos e contratação de equipes, principalmente longe dos grandes centros.
Essa tensão entre autonomia criativa e exigências do mercado está presente em “IRREFREÁVEL”. Na mixtape, a rapper reafirma sua identidade, mesmo com a pressão para criar músicas voltadas para plataformas digitais como o TikTok. “Em ‘IRREFREÁVEL’, eu falo que não é o que o mercado pede, mas eu sinto que entrego. Porque, às vezes, o mercado vai querer que você faça uma música de TikTok, mas eu não sou isso”, explicou.
Para ela, é fundamental que os artistas acreditem em sua própria verdade, mesmo que isso não gere retorno financeiro imediato. Recentemente, a cantora recusou uma proposta de trabalho que contrariava seus princípios éticos e morais.
União feminina no rap e no Delas Festival
MC Luanna também enfatiza a importância das mulheres apoiarem umas às outras para fortalecer seu espaço no rap, rejeitando a lógica da rivalidade. “Apoiem umas às outras, porque já é difícil ter uma. Se vocês começarem a se odiar, dificultam ainda mais o processo”, aconselhou.
Essa união foi evidente no Delas Festival, produzido por mulheres, que reuniu artistas, DJs e um público predominantemente feminino para celebrar a presença delas no gênero. Para a rapper, iniciativas locais como essa mostram que é possível abrir caminhos apesar da falta de incentivo público.
Interessada em conhecer outras mulheres que produzem música em Alagoas, MC Luanna destacou que a experiência no festival reforçou seu olhar sobre a força da produção cultural feminina na cidade.
Maceió além dos cartões-postais e o contraste cultural
Embora tenha se apresentado pela primeira vez no estado durante o festival, a cantora já havia visitado Maceió em férias anteriores, quando percebeu um contraste entre os pontos turísticos e os bairros que atravessava pela cidade. “Eu ia para uns passeios e chegava a lugares bonitos, só que, no caminho, ficava: ‘E essa população aqui? Essa pessoa aqui? E essa cidade aqui? Esse bairro aqui?’”, contou.
Ela também observou pichações e manifestações nos muros, sem detalhar o conteúdo ou os locais, o que a levou a refletir criticamente sobre a forma como a cidade é promovida para os turistas. “Enquanto turista, é como se o governo abandonasse a cidade e só focasse em turismo”, avaliou.
Ao retornar para a apresentação, MC Luanna encontrou uma cena cultural conduzida por mulheres dispostas a criar seus próprios espaços. Para ela, o Delas Festival é um exemplo claro de resistência e movimentação cultural em Maceió, mesmo diante das limitações apontadas.
Essa passagem da turnê “IRREFREÁVEL” pela capital alagoana ficou marcada pelo contraste entre o sucateamento da cultura, que a rapper denuncia, e a força das mulheres que seguem produzindo, abrindo palcos e renovando a cena musical local.

