A Ameaça do Lixo Marinho
Um passeio pela areia da praia pode ser um convite à reflexão. Ao caminhar, é comum se deparar com lixo deixado por banhistas, como canudos e sacolas plásticas. Esses itens, aparentemente inofensivos, têm causado danos sérios ao ecossistema marinho, resultando na morte de diversas espécies e na destruição de recifes de corais.
O problema da poluição marinha é global, mas o Brasil desempenha um papel significativo, despejando anualmente mais de 1,3 milhão de toneladas de plástico nos oceanos. Somente nas praias de Maceió, Alagoas, foram retiradas 9,4 toneladas de lixo em 2025, enquanto em 2026, até fevereiro, esse número já ultrapassava 1,7 tonelada, segundo dados da Superintendência Municipal de Desenvolvimento Sustentável (Sudes).
Plástico: O Vilão da Poluição
Pesquisas mostram que o plástico é o principal responsável pela poluição nas águas. A cada minuto, o equivalente a um caminhão de lixo plástico é despejado nos oceanos. Em um estudo realizado em Alagoas, foi observada a presença desse material em todas as praias analisadas, sendo os itens de uso único, como sacolas e copos, os mais frequentes.
O professor doutor Robson Santos, da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), destaca que as bitucas de cigarro também figuram entre os resíduos encontrados nas praias, especialmente nas mais próximas aos centros urbanos. “Embora muitos não percebam, as bitucas são feitas de acetato de celulose, um tipo de plástico não biodegradável que carrega substâncias químicas perigosas”, explica.
Os Efeitos sobre as Tartarugas e Outras Espécies
Recentemente, o ECOA LAB, em parceria com o Instituto Biota de Conservação, examinou a ingestão de plástico por tartarugas-verde e os resultados foram preocupantes: uma em cada cinco tartarugas analisadas havia ingerido plástico. O estudo também revelou que a quantidade de plástico consumido pelas tartarugas está diretamente relacionada à quantidade presente nas praias.
“Aumentando em uma unidade a presença de plástico flexível por metro quadrado de praia, elevamos em mais de 100 vezes o volume de plástico ingerido pelas tartarugas”, afirma o professor. Essa questão se estende a mais de 1.500 espécies conhecidas por ingerirem plástico, causando impactos que vão desde a morte até problemas crônicos de saúde.
A probabilidade de ingestão de plástico cresce quando os animais estão com fome ou quando os itens se assemelham ao seu alimento natural, seja pela aparência ou pelo cheiro. “Animais que têm uma dieta mais diversa estão mais propensos a consumir plástico, especialmente quando estão famintos”, ressalta.
Consequências Ambientais e Mudanças Necessárias
Além das mortes, a presença de plástico nos oceanos agrava problemas ambientais, como o aumento de doenças e o branqueamento de corais. Pesquisas indicam que partículas microscópicas de plástico podem atravessar barreiras celulares, afetando tecidos e prejudicando o crescimento e a reprodução das espécies.
Um agravante é o padrão de consumo atual. Embora o plástico seja um material durável, quase metade da sua produção se destina a embalagens descartáveis, muitas das quais são descartadas em menos de um ano. “A reciclagem resolve apenas uma pequena fração do problema. Globalmente, menos de 10% do plástico é reciclado, e no Brasil, essa taxa é alarmantemente baixa, cerca de 1%”, explica o pesquisador.
Propostas para um Futuro Sustentável
Para enfrentar a poluição marinha, são necessárias mudanças estruturais significativas. “Não podemos resolver a questão apenas com a destinação correta de resíduos. É crucial reduzir a produção e o uso excessivo de plástico”, reflete o professor Santos. Ele ressalta a urgência de políticas públicas que incentivem uma economia circular e priorizem materiais menos prejudiciais ao meio ambiente e à saúde.
Atualmente, pesquisadores estão elaborando uma proposta para Maceió e Alagoas com estratégias para monitorar e combater a poluição por plástico, visando medidas baseadas em evidências para diminuir este problema. Enquanto políticas mais amplas não são implementadas, pequenas ações cotidianas podem fazer a diferença. Evitar o uso de plásticos descartáveis é um passo importante que cada um pode adotar para preservar as praias e a vida marinha.
Reflexão e Ação Individual

