Como a Literatura Reflete a Política
A literatura, em sua essência, é capaz de abordar qualquer temática, envolvendo desde questões da vida até reflexões sobre a morte. Quando se trata do campo da política, a ficção se destaca como um espaço privilegiado para recriar cenários e confrontar diferentes pontos de vista. Um exemplo notável é o romance “Esaú e Jacó” (1904), de Machado de Assis, que, longe de seguir uma linha proselitista ou maniqueísta, busca relativizar os diversos posicionamentos existentes.
Historicamente, os escritos ficcionais com forte viés político emergem em momentos de exceção ou polarização social. Isso explica a proliferação de tais obras durante o regime militar, embora apenas as que trazem uma visão mais crítica e inovadora tenham resistido ao teste do tempo. A produção de Antonio Callado, por exemplo, se destaca por oferecer retratos de revolucionários cuja complexidade revela tanto virtudes quanto vícios. O autor do estimado “Quarup” (1967) enfrentou o desafio de imaginar figuras geralmente repulsivas, como os torturadores, em sua narrativa.
Paradoxos e Heroísmo na Política
Outro trabalho relevante nesse contexto é “A festa” (1976), de Ivan Ângelo, que adota uma abordagem experimental e caleidoscópica. O enredo, ao recusar o heroísmo tanto à direita quanto à esquerda, expõe vacilos éticos de ambas as partes, humanizando os personagens e ressaltando a verossimilhança da trama. Essa exposição de paradoxos garante que a idealização não cerceie a narrativa, permitindo uma leitura mais livre e crítica.
Além disso, a literatura, enquanto produto da imaginação, não pode ser sujeita a processos judiciais, conferindo aos autores uma responsabilidade significativa. Essa liberdade criativa permite que boatos e conjecturas sejam reinventados, iluminando o período em que as ações se desenrolam. A trilogia que Edgard Telles Ribeiro dedicou à ditadura exemplifica a eficácia desse procedimento literário. Em seu romance “O punho e a renda” (2010), por exemplo, o maquiavelismo de um diplomata cria enredos que, se abordados por historiadores e jornalistas, poderiam ser impossíveis de publicar devido à falta de provas.
A Tensão Política nas Narrativas Recentes
A reflexão sobre a tensão política das últimas cinco décadas se desdobra em “Manobras de retorno”, obra em que aplico os ensinamentos adquiridos a partir de livros como os mencionados. Nos três primeiros contos, abordo a crise de uma guerrilheira, os perigos enfrentados por uma trupe teatral e as incertezas de um personagem inspirado no escritor Caio Fernando Abreu, que vive o ambiente da abertura política em suas nuances.
No entanto, em contraste, surgem os protagonistas de duas narrativas que se desenrolam em um passado recente: um general decidido a restaurar a autoridade das Forças Armadas e o desencantado romancista francês Louis-Ferdinand Céline, que supostamente busca uma ressurreição no Brasil, demonstrando desdém pelo futuro do país.
Democracia e Diversidade na Ficção
Através da intersecção de perspectivas opositoras, a ficção se revela democrática em sua estrutura. Esse gênero não apenas amplia o espaço para o uso da linguagem, mas também enriquece a discussão sobre os temas abordados. Independentemente da questão em pauta, é crucial manter um caráter polifônico, multifacetado e, por vezes, até polissêmico, que, em última análise, remete à sua essência artística.
Essas reflexões nos mostram que a literatura, quando aborda a política, não se contenta em narrar fatos; ao contrário, provoca o leitor a questionar, analisar e, quem sabe, até transformar a sua realidade.
Dau Bastos – professor de literatura brasileira e autor de “Manobras de retorno”.

