Um Marco da Polarização Política
Há uma década, a votação do impeachment de Dilma Rousseff (PT) na Câmara dos Deputados tornou-se um símbolo visível da polarização política que, até então, era frequentemente mencionada de forma abstrata. Naquele dia, um muro de metal foi erguido no gramado da Esplanada dos Ministérios, separando os defensores do impeachment, vestidos de amarelo, dos que se opunham ao afastamento da então presidente, trajando vermelho e chamando aquilo de ‘golpe’. Sem essa barreira, a situação poderia ter tomado rumos ainda mais trágicos.
A partir daquele evento, o Brasil nunca mais encontrou um meio-termo, o que talvez seja o legado mais duradouro dessa importante data histórica. O impeachment de Dilma não apenas selou o nascimento da chamada ‘nova direita’, que finalmente se assumiu após anos de desconforto em partidos que representavam mais o antipetismo do que um conservadorismo autêntico, mas também pavimentou o caminho para a ascensão de Jair Bolsonaro ao poder, dois anos depois.
A Ascensão de Jair Bolsonaro
Na época, o então deputado federal e capitão reformado do Exército era visto mais como uma figura folclórica. Sua participação no processo de impeachment limitou-se a glorificar um militar torturador durante seu voto e a ser alvo de uma cusparada do ex-BBB e deputado Jean Wyllys. É significativo que a edição da Folha do dia seguinte ao impeachment tenha dedicado apenas duas linhas a Bolsonaro, descrevendo-o como um ‘polêmico deputado, ídolo da extrema direita’.
A polarização se refletiu também na linguagem do debate público, com termos como ‘golpe’ adquirindo um novo significado, abrangendo até ações que eram perfeitamente constitucionais, ainda que discutíveis. A maneira como se referir a Dilma, se como ‘presidenta’ ou ‘presidente’, já deixava claro de que lado cada um estava.
O Impacto das Redes Sociais
As redes sociais, embora ainda em ascensão, já desempenhavam um papel significativo no debate político. Elas foram fundamentais na popularização de apelidos como ‘Bessias’, que se fixou na imagem do hoje indicado ao STF, Jorge Messias. O famoso ‘tchau, querida’ de Lula a Dilma rapidamente se transformou em um slogan da oposição, evocando um tempo em que esse tipo de comunicação era feito via telefonema, enquanto atualmente poderia facilmente ter sido um áudio de WhatsApp.
Michel Temer, que assumiria o cargo interinamente em menos de um mês após o impeachment e definitivamente após a votação do Senado em agosto, igualmente deixou sua marca na história. Sua carta lamentando ser um ‘vice decorativo’ e seu uso frequente de expressões em latim, além de suas peculiaridades corporais durante discursos, se tornaram memoráveis.
A Influência do Centrão
Eduardo Cunha, ao proclamar que ‘Deus tenha misericórdia dessa nação’ durante o desfecho do processo, também se tornou uma figura emblemática desse capítulo. De fato, o impeachment deixou marcas no cenário político que perduram até hoje, destacando-se como um momento de fortalecimento do Centrão – um agrupamento de deputados conhecidos por sua falta de ideologia, que rapidamente se tornou a base de sustentação do governo de Temer. Desde então, o poder desse grupo não parou de crescer, impulsionado por emendas impositivas que engessaram a administração do Executivo.
Além disso, o episódio solidificou a imagem de Gilberto Kassab como um camaleão político, tendo sido ministro de Dilma até o último momento e, logo após, titulado no governo Temer. Foi também um dos últimos suspiros de relevância do PSDB, que cedeu quadros importantes e prestígio ao novo governo, nomeando, por exemplo, o ministro das Relações Exteriores.
Um Processo Sob Denúncias
Finalmente, é essencial mencionar que a saga que resultou na destituição da primeira mulher a governar o Brasil ocorreu sob o peso das denúncias da Operação Lava Jato, as quais influenciaram muito mais o desfecho do impeachment do que o pretexto formal das chamadas pedaladas fiscais. Este contexto não apenas alterou o equilíbrio político, mas também deixou uma cicatriz profunda na sociedade brasileira.

