Movimento alagoano busca justiça histórica ao reivindicar mudança de nome de avenida
No cenário atual de Alagoas, um levante de lideranças de religiões de matriz africana se intensificou, ganhando o apoio de membros do judiciário alagoano. A principal reivindicação é a remoção do nome de Fernandes Lima de uma das avenidas mais importantes de Maceió, considerada uma ação reparadora em relação a eventos traumáticos do passado.
Entre as vozes que se destacam nesse movimento está Mãe Miriam, que tem se posicionado com firmeza sobre a necessidade de reconhecer a Quebra de Xangô como um erro histórico. Para ela, é imprescindível que o nome do agente do Estado que orquestrou essa ação seja substituído pelo nome de uma líder assassinado naquele episódio. “Não é de hoje que eu e o professor Edson Moreira desejamos que a Avenida Fernandes Lima passe a se chamar Tia Marcelina. Essa mulher sofreu enormemente em nosso estado, e é hora de dar a ela o reconhecimento que merece”, afirma Mãe Miriam.
A ativista destaca que, finalmente, encontrou respostas positivas de figuras no poder. “Fomos até os desembargadores, e Tutmés Airan se destacou como aquele que mostrou coragem para apoiar nossa causa. Há uma intolerância exacerbada atualmente, e ele está enfrentando uma onda de críticas por isso, mas o apoio dele é fundamental para nós. Estamos, na verdade, buscando resgatar nossa história, como a de 1912, que não pode ser esquecida”, enfatiza.
Mãe Miriam também faz um apelo ao poder público, enfatizando a importância de homenagem a figuras que representam as diversas etnias que compõem a sociedade brasileira. “Peço que o Estado, a Prefeitura e demais órgãos atendam ao nosso pedido. Não é um pedido exagerado. Diversas cidades do Brasil já homenageiam os povos indígenas em seus nomes. Então, por que manter o nome de Fernandes Lima, associado a um episódio tão cruel de nossa história?”, questiona.
Ela acredita que a proposta de renomear a avenida para Tia Marcelina é uma questão de justiça histórica. “Tia Marcelina não é apenas uma figura da nossa religião; ela simboliza a luta do movimento negro e a resistência à opressão. É preciso que essa história continue viva nas escolas e na memória coletiva, pois é uma parte rica de nossa cultura que não pode ser ignorada”, ressalta.
Tutmés Airan, desembargador do Tribunal de Justiça de Alagoas (TJ/AL), já se manifestou a respeito da importância desse movimento. “Estamos buscando a Defensoria Pública para analisar a viabilidade de uma ação popular que questione a permanência do nome de Fernandes Lima. Existe uma demanda popular legítima que clama por justiça histórica”, explica.
Airan relembra que o próprio governo estadual já reconheceu a gravidade do ocorrido em 1912, quando o governador Teotônio Vilela pediu perdão pelos atos de violência praticados contra as comunidades afrodescendentes. “O Estado, na figura de suas autoridades, reconheceu que um agente do governo fomentou a violência contra os terreiros, e isso não pode ser tratado de forma leviana. Essa violação de direitos fundamentais, especialmente do direito à liberdade religiosa, não pode ser premiada”, observa o magistrado.
Para ele, a melhor forma de tratar esse assunto é retirar as homenagens a quem perpetuou atos de violência. “A ideia aqui é restaurar uma verdade histórica, para que essas homenagens não sejam uma forma de impunidade. Não podemos deixar que isso aconteça novamente”, conclui.
A historiadora Sandra Sena, especializada na história do racismo em Alagoas, também analisa o caso da Quebra de Xangô. Segundo ela, o acontecimento não deve ser enxergado apenas como um conflito religioso, mas como uma manifestação da brutalidade nas relações sociais. “Eu insisto que o episódio da Quebra de Xangô não é simples. Foi uma expressão do racismo arraigado nas elites alagoanas, e o alvo escolhido revela muito sobre como o racismo está imbricado nas estruturas de poder da República brasileira”, argumenta.
Em entrevista, ela acrescenta que o episódio foi um atentado à dignidade de um povo. “A destruição dos terreiros e a perseguição aos líderes foram ações orquestradas que visavam silenciar uma cultura. O Quebra de Xangô não foi apenas um ataque a credos, mas um ataque à existência de pessoas negras”, acrescenta.
Para Sandra, a proposta de trocar o nome da avenida é um passo na direção correta. “Mudar o nome da Avenida Fernandes Lima para Tia Marcelina é um gesto de cuidado com a memória da cidade. Essa mudança é um convite à reparação e ao reconhecimento histórico”, enfatiza. “Maceió precisa retomar sua identidade, lembrando de quem realmente sustentou sua história com coragem e resistência”, conclui.
Soso de Yemonjá, uma mulher ligada a um terreiro, também expressa seu apoio à causa. “A troca do nome representa um ato de reparação e reconhecimento das religiões de matriz africana em Alagoas. Este é um passo essencial para corrigir as injustiças do passado e valorizar quem realmente contribuiu para a formação da sociedade alagoana”, afirma.
Soso destaca a importância de Tia Marcelina como símbolo de resistência. “Ela representa a luta contra a opressão e a preservação das tradições ancestrais. Para avançarmos, precisamos não apenas reconhecer os erros do passado, mas agir no presente. A verdadeira justiça não se limita a pedir desculpas, mas exige ações concretas de reparação”, conclui.

