Artesanato como Instrumento de Conexão Cultural
As mãos que moldam a madeira e bordam tecidos não apenas criam belas peças, mas também compartilham saberes e histórias que enriquecem a cultura alagoana. A 13ª Feira dos Municípios Alagoanos – Congresso Expo, que foi encerrada no último domingo (25) no Centro de Convenções Ruth Cardoso, em Jaraguá, se destacou como uma plataforma não só para a exibição de artesanato, mas também para o intercâmbio cultural vital entre diferentes regiões do estado.
Durante o evento, o público teve a oportunidade de apreciar obras que vão além da estética, conhecendo o trabalho de mestres artesãos que veem no ensino uma forma de perpetuar a memória de seu povo. Um exemplo claro dessa tradição é o Mestre André da Marinheira, um dos representantes de Boca da Mata. Patrimônio Vivo de Alagoas, ele começou a esculpir madeira aos 12 anos, seguindo a tradição familiar que agora é passada para sua filha, Natália, que também participou da feira pela primeira vez. Natália adaptou as artes tradicionais do pai, criando miniaturas que se transformaram em colares, pingentes e brincos.
A importância das feiras para a divulgação do trabalho e das criações artísticas não passa despercebida por eles. “Meu sustento vem exclusivamente do artesanato. Esses eventos são cruciais para a troca de ideias com outros artesãos e o contato com turistas, além de ser uma fonte de inspiração que me faz voltar para casa com novas ideias”, afirma Mestre André. Para Natália, a participação na feira representa um “pontapé inicial” para sua carreira, com a ambição de alcançar o mesmo reconhecimento que seu pai teve em outros estados e até fora do país.
A Valorização da Cultura Local por Autoridades
O evento também contou com a presença do deputado estadual Alexandre Ayres, que elogiou o resgate da feira como uma forma de fortalecer a cultura local. Ele ressaltou a importância do intercâmbio entre os artistas: “É gratificante ver o trabalho de cada um exposto aqui. Os estandes estão deslumbrantes, e a animação dos artistas para vender suas criações é inspiradora. Nossos artesãos merecem valor e reconhecimento, pois a economia criativa não pode ser ofuscada pela modernidade das redes sociais”.
O Poder Transformador do Artesanato
Além das exposições, a feira reuniu diversas manifestações culturais, como a cerâmica, bordados, crochê e arte em couro. De Belo Monte, Aline Caju e Andréia Bordados ilustram como a vida rural pode ser transformada em arte. Aline, que aos 38 anos começou a esculpir sob a orientação do mestre Jasson, considera o ato de esculpir uma verdadeira liberdade, possibilitando até mesmo o cuidado com seu filho de sete anos, que tem Transtorno do Espectro Autista (TEA). “Nunca imaginei que poderia fazer o que faço hoje. Estar pela primeira vez em uma feira é um sonho realizado”, disse Aline.
Andréia, com 44 anos, traz consigo a tradição de sua família bordadeira. Depois de muito tempo se dedicando a criar peças para si e para seus filhos, ela decidiu profissionalizar sua arte em 2023, motivada por amigos e pelo desejo de expor suas criações. “Eu me vejo no bordado. É uma maravilha poder compartilhar essa tradição com minhas netas”, declarou.
Inclusão Social e a Preservação das Tradições
Rôndone Ferreira Santos, professor e artesão de Porto Real do Colégio, destaca a transmissão de saberes como um meio poderoso de inclusão social e que ajuda a perpetuar as tradições dos povos originários. Em sua jornada pelas artes plásticas, Rôndone, que começou sob a orientação do escultor Jorge Maia, atualmente trabalha com colagens, pintura em cerâmica e pigmentos naturais. Ele enfatiza a importância de resgatar a tradição do barro, que tem se perdido ao longo do tempo, e alerta: “Se não começarmos a trabalhar com as crianças e os jovens, nossa cultura pode se perder”.
O artista está promovendo na sua cidade um projeto de aulas gratuitas de desenho e pintura voltadas para alunos em situação de vulnerabilidade social e também para a terceira idade. “A arte é um caminho difícil de seguir no interior, mas queremos desenvolver o talento dos jovens, afastando-os da marginalidade e das influências negativas do mundo moderno”, concluiu Rôndone.

