Desdobramentos da Proposta de Alteração da Jornada de Trabalho
A volta das atividades no Congresso trouxe à tona a revisão da jornada de trabalho, colocando a proposta de extinguir a escala 6×1 como um dos pilares da agenda política do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para 2026. Essa mudança, que não prevê redução salarial, está sendo lida com cautela pelo mercado, que a interpreta não apenas como uma discussão trabalhista, mas como um potencial risco fiscal e econômico. As consequências desse debate podem afetar diretamente o emprego, a produtividade e o crescimento econômico do país.
No programa Mapa de Risco, transmitido na última sexta-feira (6), analistas discutiram como essa questão ganhou relevância em um momento em que o calendário eleitoral começa a influenciar as decisões no Congresso. “Possivelmente, essa será a última eleição do presidente Lula. O PT pode usar essa campanha para se reconectar com pautas que são sensíveis à sua base eleitoral, especialmente entre os trabalhadores”, comentou Bárbara Baião, analista de política da XP.
Impactos Econômicos e Divergências de Opinião
O debate sobre a jornada de trabalho revela profundas divergências entre especialistas. Um estudo do Centro de Liderança Pública sugere que a eliminação da escala 6×1 poderia provocar a destruição de mais de 600 mil empregos formais, gerando uma queda significativa na produção, especialmente nos setores de comércio, agropecuária e construção civil. Em contrapartida, defensores da proposta sustentam que a medida poderia criar novos postos de trabalho e aumentar a massa salarial.
Um levantamento do Dieese indica que a redução da carga horária de 44 para 40 horas semanais poderia resultar na geração de até 3,6 milhões de novos empregos formais, enquanto uma redução para 36 horas poderia criar até 8,8 milhões de postos, com uma massa salarial adicional de 9,2 bilhões.
Bianca Lima, também analista de política da XP, destaca que não se trata apenas da validade da proposta em si, mas da probabilidade de ela avançar em um ambiente político que favorece pautas populares. “Se esse assunto for discutido nos plenários, a chance de progresso é alta, já que é difícil se opor a uma proposta tão bem recebida pela população, especialmente em ano eleitoral”, avaliou Bianca.
Possíveis Compromissos e Preocupações do Mercado
Apesar da ambição do discurso, analistas acreditam que, se a proposta avançar, ela provavelmente será moderada. “Não vejo espaço para uma mudança drástica, como a adoção de uma jornada 4×3. O que pode ocorrer é uma solução intermediária, algo como 5×2, acompanhado de discussões sensíveis sobre a manutenção dos salários, custos para as empresas e prazos de implementação”, comentou Bianca.
Essa situação gera preocupação, especialmente entre setores que dependem intensivamente de mão de obra, como bares, restaurantes e comércio. Esses segmentos já estão atuando junto ao Congresso para tentar reduzir os impactos da nova proposta, já que qualquer redução na jornada com preservação salarial pode resultar em aumento de custos em um cenário de juros elevados e margens de lucro apertadas.
Pressão Eleitoral e Cautela do Mercado
O timing da discussão em torno da escala 6×1 acentua a percepção de risco. De acordo com Bárbara Baião, o governo está ciente de que a proposta pode ganhar força ainda no primeiro semestre de 2024, exatamente quando deputados e senadores estão mais atentos ao clima eleitoral. “É uma pauta altamente popular e a expectativa do Planalto é que haja grande adesão, principalmente se a relação com a presidência da Câmara permanecer favorável”, observou.
Para o mercado, a preocupação não reside apenas no conteúdo final da proposta, mas também no sinal político que ela representa. A combinação de pressão eleitoral, a agenda trabalhista e a incerteza sobre as compensações econômicas pode aumentar a cautela em relação a ativos vinculados ao consumo e serviços, além de suscitar questionamentos sobre o comprometimento do governo com a previsibilidade fiscal à beira da disputa presidencial.
O Mapa de Risco, programa que aborda as questões políticas e econômicas do Brasil, é transmitido todas as sextas-feiras às 5h da manhã, disponível no YouTube e nas principais plataformas de podcast.

