A Demonização no Cenário Político
Desde tempos imemoriais, o conceito de mal tem sido personificado, e essa figura, frequentemente associada ao temor e à acusação, tem um papel significativo na política contemporânea. A primeira representação do mal na tradição cristã remonta à Bíblia, onde a serpente no Gênesis simboliza a personificação do adversário. Eduardo Afonso, psicólogo e pós-graduando em psicanálise pela PUC Goiás, explica que a figura do diabo é uma construção capaz de evocar medo, um sentimento que precede qualquer lógica ou razão. Para ele, o impacto simbólico da acusação é profundo, e o ‘diabo’ explora essa vulnerabilidade humana ao longo da história.
Não é apenas uma figura da mitologia religiosa; a demonização do adversário político tornou-se uma ferramenta comum nos discursos eleitorais. Um exemplo disso foi o deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO), que, em um evento em São Paulo, utilizou essa figura para polarizar o apoio em torno da imagem de Bolsonaro, referindo-se ao seu opositor como “satanás do Lula”. Essa estratégia revela como o imaginário do mal ainda é usado para desumanizar e simplificar o debate político, transformando adversários em inimigos que não merecem discussão, mas apenas enfrentamento.
O Efeito do Medo na Mobilização Eleitoral
A utilização de termos como “corrupto” gera indignação, mas chamar alguém de “diabólico” provoca uma reação mais intensa, quase de pânico. Afonso salienta que esse tipo de linguagem tem um efeito mobilizador, tornando a adesão ao discurso mais rápida, embora empobreça o debate público. Em 2025, palavras como “diabo” foram citadas 51 vezes nas falas da Câmara dos Deputados, evidenciando a proliferação dessa linguagem nas discussões políticas. O uso excessivo e reiterado do termo, especialmente por parlamentares do Partido Liberal (PL), indica uma estratégia deliberada para engajar e polarizar a opinião pública.
A cientista política Kelly Prudencio, da Universidade Federal do Paraná, aponta que essa evocação da figura do mal representa uma mudança significativa no entendimento sobre adversários políticos. Para ela, a demonização não é apenas retórica, mas reflete uma desconfiança nas instituições democráticas e uma necessidade de eliminar a oposição como símbolo de ameaça. O uso do discurso religioso nesse contexto ganha relevância, funcionando como uma solução simplista para frustrações sociais profundas, como desigualdade e desemprego.
A Figura do Diabo na História
Historicamente, a figura do diabo tem sido uma constante na narrativa humana, passando de uma hipótese a uma entidade claramente definida. No século VII a.C., na antiga Pérsia, o profeta Zoroastro já falava sobre Arimã, o princípio das trevas. Com o cristianismo, essa figura ganhou um papel proeminente, influenciando comportamentos e justificando punições. O diabo tornou-se uma ferramenta para organizar a sociedade, justificando o sofrimento e a desobediência.
Durante a Idade Média, o diabo assumiu um papel jurídico, sendo utilizado para legitimar a violência contra hereges, bruxas e grupos marginalizados. Ao atravessar o Atlântico durante a colonização, essa figura foi adaptada para demonizar práticas religiosas africanas e indígenas, justificando a escravidão e a opressão.
Impactos Contemporâneos da Demonização
Nos séculos XX e XXI, o diabo mudou de forma, mas sua essência permanece. No contexto da Guerra Fria, o comunismo foi retratado como uma ameaça existencial, e essa demonização desumanizou não apenas adversários políticos, mas também justificou intervenções e violências estatais. O ex-presidente Ronald Reagan, ao rotular a União Soviética como o “império do mal”, exemplifica essa estratégia de transformar uma ideologia em um inimigo absoluto.
Hoje, essa lógica persiste nas arenas políticas, onde a demonização de adversários continua a eliminar o diálogo. O psicólogo Eduardo Afonso ressalta que ao rotular alguém de diabólico, se cria um inimigo metafísico, que não necessita de provas ou justificação; a mera acusação já é suficiente. Essa dinâmica torna o debate cada vez mais polarizado e menos produtivo.
Assim, a figura do diabo se revela como uma projeção de medos coletivos e desejos reprimidos. O que antes era uma figura mítica continua a desempenhar um papel crucial na política contemporânea, mostrando que a luta contra o mal, mesmo que simbólica, ainda permeia as decisões eleitorais e os discursos que moldam nossa sociedade.

