Um Capítulo Sombrio da História de Alagoas
Neste mês de fevereiro, a memória de um dos episódios mais sombrios da intolerância religiosa no Brasil completa 114 anos. Em 2 de fevereiro de 1912, Maceió foi cenário de uma violenta ação promovida pela Liga dos Republicanos Combatentes, que destruiu 150 terreiros de religiões de matriz africana. Os ataques, marcados por espancamentos e apedrejamentos, deixaram marcas profundas na comunidade, como no caso de Tia Marcelina, uma ex-escravizada vinda de Angola que foi uma das vítimas dessa brutalidade.
O impacto daquela ondada de violência ainda ressoa hoje em diversos terreiros nos bairros do Poço e Vergel do Lago, que, temerosos de represálias, optam por manter um perfil discreto. Frequentemente, são sinalizados apenas por bandeiras brancas penduradas em suas entradas, simbolizando a resistência frente à intolerância religiosa que ainda persiste em algumas partes da sociedade.
A Liga dos Republicanos Combatentes: História e Conexões
Com o intuito de aprofundar essa narrativa, estamos iniciando uma série de três matérias que investigarão as origens e a atuação da Liga dos Republicanos Combatentes, além de seus vínculos com as famílias mais influentes em Alagoas. A Liga não apenas se manteve ativa por mais de 20 anos, como também criou uma escola e se tornou uma milícia estruturada, cujo principal objetivo era desafiar a oligarquia liderada por Euclides Malta. Contudo, essa fachada escondia interesses muito mais amplos, e a Liga acabou ganhando apoio até mesmo de figuras de destaque na Associação Comercial da época, um reconhecimento que se estendeu até a sua dissolução em 1930.
Contexto Eleitoral e Fraudes em Alagoas
Para entender a situação em 1912, é fundamental situar os leitores no contexto político da época. Naquele período, a Câmara dos Deputados estava analisando as eleições brasileiras, que estavam repletas de denúncias de fraudes. Em Alagoas, a situação era alarmante: das 136 seções eleitorais do estado, 87 tiveram suas votações anuladas devido a irregularidades. Cidades como Maceió, Penedo, Atalaia, São José da Laje e Traipu apresentaram sérios problemas organizacionais, com candidatos recebendo mais votos do que o número de eleitores previstos.
Um exemplo claro de fraude foi o caso do deputado Rocha Cavalcanti, que teve mais de sete mil votos anulados. O cenário se repete com Natalício Camboim, que teve 6.634 votos, dos quais 1.195 foram desconsiderados por irregularidades. Além disso, Demócrito Gracindo, pai do futuro ator Paulo Gracindo, viu 763 de seus votos serem anulados, resultando em um clamor por justiça e uma crescente insatisfação pública com o processo eleitoral.
Pressão e Manipulação Durante as Eleições
Era comum que os eleitores enfrentassem pressões durante as votações. Em São José da Laje e Viçosa, candidatos foram eleitos mesmo sem receber votos. Em Junqueiro, um suplente de juiz federal participava do processo eleitoral, embora nunca tenha sido nomeado. Irregularidades como mesários não escolhidos, fiscais votando sem serem eleitores e listas falsas eram recorrentes. A falta de clareza nas participações de juízes nos esquemas levantou dúvidas sobre a integridade do sistema eleitoral da época.
O parecer da Câmara dos Deputados, que culminou na anulação dos votos, foi concluído em 6 de março de 1912, gerando um clima de descontentamento generalizado. Os ecos da revolta da Liga dos Republicanos Combatentes e da manipulação eleitoral de 1912 ainda fazem parte da história política e religiosa de Alagoas, evidenciando a necessidade de reflexão e discussão sobre a intolerância que ainda persiste em nossa sociedade.

