A Ausência de Políticas Públicas Estruturantes
Responsabilizar um único agente pela recorrência de desastres naturais nas cidades brasileiras é uma simplificação inadequada. Prefeituras, governos estaduais e a União desempenham papéis cruciais na formulação de políticas urbanas e ambientais eficazes. A ausência de um Plano Diretor que esteja atualizado e em vigor, a falta de fiscalização da ocupação irregular, investimentos insuficientes em drenagem urbana, manutenção ineficaz de galerias e canais, e a ausência de uma política habitacional que realoque famílias de áreas de risco resultam em consequências trágicas, cada vez mais evidentes nas manchetes de jornais e nos abrigos improvisados.
O problema vai além da intensidade das chuvas; a falta de uma cultura de prevenção é um fator crítico. Quando eventos climáticos extremos se tornam frequentes, a resposta deve ser um planejamento robusto que leve em conta não apenas as mudanças climáticas em curso, mas também as particularidades de cada cidade.
Impactos das Mudanças Climáticas
Com a evolução do aquecimento global, a frequência e a intensidade dos eventos climáticos extremos aumentam. As chuvas torrenciais e concentradas em curtos períodos de tempo elevam o volume de água que precisa ser gerido de forma eficiente. Cidades que já enfrentavam desafios estruturais tornam-se ainda mais vulneráveis diante dessa nova realidade.
Planejamento climático adequado, mapeamento das áreas de risco e a execução de obras estruturantes que contemplem um horizonte de várias décadas são essenciais. Não basta pensar apenas no próximo inverno; é preciso garantir soluções de longo prazo.
A Responsabilidade da População
A população também desempenha um papel nessa dinâmica. O descarte inadequado de lixo, que culmina em entupimentos de bueiros e galerias, é um problema recorrente. Além disso, a pressão por moradias muitas vezes resulta na ocupação de áreas impróprias, quando o poder público não oferece alternativas viáveis.
Entretanto, é fundamental ressaltar que a maior responsabilidade recai sobre as esferas governamentais, que dispõem de ferramentas legais e financeiras para elaborar e implementar políticas preventivas.
Tragédia Anunciada: O Que Isso Significa?
Quando um bairro enfrenta alagamentos todos os anos, a questão não pode ser tratada como um mero ‘desastre natural’. Essa situação revela uma omissão sistemática. O deslizamento em encostas que já estão mapeadas como áreas de risco é um reflexo da negligência histórica das autoridades competentes.
A recorrência das cheias expõe uma desigualdade social gritante: as populações periféricas, frequentemente as mais afetadas, residem onde o mercado formal não atua e onde a presença do Estado é quase nula.
A Pergunta que Não Quer Calar
Diante desse cenário, a pergunta que se impõe é: quem é o verdadeiro responsável por essa situação? A resposta deve ser vista de forma coletiva, mas institucionalmente, está concentrada em gestores públicos que falham em priorizar o planejamento urbano e ambiental. Políticas que existem apenas no papel, e uma cultura administrativa que reage mais em situações de emergência do que se antecipa a elas, perpetuam o ciclo de tragédias.
Enquanto a gestão continuar a ser reativa, cada nova temporada de chuvas trará à tona o mesmo lamento e as mesmas imagens de destruição. O que realmente assusta é perceber que talvez o maior desastre não seja a força da chuva, mas a previsibilidade da tragédia que se repete a cada ano.

