Uma Reflexão Necessária sobre o Supremo
A recente rejeição de um candidato indicado ao Supremo Tribunal Federal (STF) pelo presidente Lula aponta para um aspecto crucial: a derrota de um modelo de indicações que prioriza o alinhamento político em detrimento da independência judicial. Como destacou um político experiente, ‘o Supremo não é assessoria da presidência’.
Lula, após indicar seu advogado pessoal e um correligionário, tentou promover um nome cuja trajetória foi construída basicamente por sua lealdade ao partido e aos governos do PT. Embora essa trajetória possa ser válida em vários contextos, ela se revela inadequada para a Suprema Corte, cujas principais características devem ser a imparcialidade e a autonomia, distantes de quaisquer interesses políticos. O que deve prevalecer é a fidelidade à Constituição e à legislação, não a lealdades partidárias ou ideológicas.
Desafios no Estado de Direito
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Fonte: soudejuazeiro.com.br
Outro ponto relevante é a recente ação arquivada pela Procuradoria-Geral da República (PGR) referente a um caso de homofobia envolvendo um ministro do STF. A PGR justificou o arquivamento com base na natureza da declaração, a qual foi reconhecida como homofóbica pelo próprio ministro, mas que foi considerada sem gravidade suficiente devido a um pedido de desculpas posterior.
Isso levanta uma questão inquietante: a partir de agora, será que qualquer pessoa poderá se eximir de responsabilidade por declarações racistas ou homofóbicas apenas pedindo desculpas no dia seguinte? Ou essa regra vale apenas para este caso específico? A igualdade perante a lei está sendo desconsiderada? A impressão que se tem é que existem diferentes camadas de aplicação da lei, dependendo do contexto ou da posição social do indivíduo.
A Hierarquia da Interpretação Legal
O que se observa é uma preocupante tendência de se quebrar o estado de direito no Brasil, onde a interpretação da norma parece estar prevalecendo sobre o texto legal. Essa flexibilidade quanto à aplicação da lei convida a um ambiente onde decisões são tomadas com base em interpretações pessoais, muitas vezes levando em conta a cor, a posição ou o ‘lado’ político de quem está sendo julgado.
Um exemplo disso é a imunidade parlamentar. O que acontece com um deputado processado por denunciar abusos de poder na Câmara? E o que dizer de um pastor que, sem foro privilegiado, se torna réu por chamar autoridades de ‘covardes’? Além disso, como interpretar o envio de uma carta pela Advocacia Geral da União a uma jornalista pedindo a remoção de um tuíte crítico sobre um projeto de lei em análise no Congresso?
A Aprovação da ‘Dosimetria’ e Suas Implicações
Quando analisamos a recente aprovação da ‘dosimetria’ no Congresso, é impossível não questionar a legalidade e a ética de condenar um cidadão de 70 anos a 14 anos de prisão por um transação financeira de apenas 500 reais. Onde fica o princípio da instância devida, que garante o direito a um julgamento justo e a possibilidade de recurso? A quebra desse princípio poderá levar a um cenário onde muitos são julgados sem garantias e à revelia do que estipula nosso estado de direito.
Nos últimos anos, temos nos tornado testemunhas de um processo de ‘bestialização’, onde a aceitação passiva de tal estado de coisas se torna a norma. Porém, o que se viu recentemente foi uma reação a isso. Não se trata apenas de uma derrota do governo, mas da fragilidade de um sistema de poder que, ao longo do tempo, tem lidado de maneira questionável com os direitos e garantias individuais no Brasil.
O Que Esperar do Supremo?
A melhor resposta que o STF pode oferecer a esta reação é o encerramento dos ‘inquéritos’ controversos e o restabelecimento da normalidade institucional no país. É vital que as regras do jogo, que todos nós consensualmente decidimos, sejam respeitadas e que não nos afastemos novamente dessa senda, especialmente neste triste contexto brasileiro dos últimos anos.

