Pressão Sobre o Cenário Político
A negociação do banqueiro Daniel Vorcaro com a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República (PGR) para um acordo de delação premiada intensificou a tensão em Brasília. No horizonte, novas revelações sobre o escândalo do Banco Master podem impactar diversas esferas do governo e da política brasileira.
A avaliação entre políticos, juristas e membros do setor empresarial é de que as possíveis divulgações podem causar danos significativos em múltiplas frentes. O temor é que a delação atinja não apenas integrantes do governo Lula (PT), mas também figuras do Congresso, líderes dos partidos do centrão, opositores e até mesmo membros do Supremo Tribunal Federal (STF), além de outros segmentos do Judiciário.
Com o período eleitoral se aproximando, a preocupação é palpável entre os políticos. As investigações podem coincidir com a campanha, gerando repercussões negativas no ambiente eleitoral, com denúncias e operações policiais ocorrendo paralelamente ao pleito. O ministro André Mendonça, responsável pelo processo no STF, já declarou a seus auxiliares que não pretende suspender as apurações durante as eleições.
Vazamentos e Críticas no Congresso e Judiciário
No Congresso e no Judiciário, a insatisfação é evidente em relação ao que muitos consideram vazamentos seletivos de informações por parte da polícia, usados como estratégia para angariar apoio popular nas investigações direcionadas a autoridades. A percepção é que as revelações sobre os eventos luxuosos frequentados por Vorcaro, que envolvem gastos exorbitantes, trouxeram à tona um escândalo que antes estava restrito a um público mais específico.
Congressistas consultados pela Folha de S.Paulo projetam que os presidentes das duas principais siglas do centrão, Antônio Rueda, do União Brasil, e Ciro Nogueira, do PP, devem ser os principais alvos das investigações. Em diálogos com aliados, ambos confirmam suas relações pessoais com Vorcaro — já reveladas pela quebra de sigilo telefônico do banqueiro —, mas negam qualquer transação financeira inadequada.
Informações indicam que Nogueira e Rueda observam em conversas informais que frequentar festas não é crime, e que todos os políticos naturalmente buscavam aproximação com Vorcaro quando ele ainda estava no auge. O ex-banqueiro, vale ressaltar, era ativo em eventos com figuras de destaque na política.
Entretanto, há um temor crescente em relação ao vazamento de fotos e mensagens pessoais, que poderiam ser utilizadas por adversários para constrangê-los durante a campanha.
Rueda se manifestou à Folha, afirmando que não comenta rumores ou delações supostas. “Nunca atuei como intermediário, não recebi vantagens e não tenho relações comerciais com quem quer que seja nesse caso. Qualquer tentativa de me envolver é pura especulação”, destacou.
Nogueira não se pronunciou sobre a reportagem.
Discurso de Blindagem e Expectativas no Governo Lula
Aliados do presidente Lula estão mobilizados para blindá-lo de possíveis repercussões, enfatizando que foi durante sua gestão que esquemas herdados da administração anterior foram desmantelados. Recentemente, Lula afirmou em discurso que o Banco Master representa “a obra, é o ovo da serpente, de Bolsonaro e de Roberto Campos Neto, ex-presidente do Banco Central”.
Colaboradores de Lula demonstram expectativa de que o ministro André Mendonça atue de forma técnica. Na visão de seus aliados, mesmo que tentativas de responsabilizar o governo Lula surjam, é inegável a impossibilidade de ignorar a administração anterior.
Auxiliares relataram que Lula acredita que, mesmo que a participação de algum aliado venha à tona, isso representaria apenas uma gota em um oceano de bolsonaristas. Membros do governo relembram que o presidente sempre incentivou as investigações e sugeriu que os citados se expliquem.
Um dos ministros minimiza a possibilidade de que Vorcaro proteja amigos em sua delação, ressaltando que qualquer acusação deve ser fundamentada. Apesar dessas considerações, uma parte do governo admite que as declarações de Vorcaro podem ter um impacto negativo nas eleições.
Expectativa e Desconfiança entre os Bolsonaristas
No espectro político de direita e entre os bolsonaristas, a negociação para a delação é vista como algo positivo, com a esperança de que figuras do centrão e da esquerda sejam impactadas, especialmente ministros do STF. As falas de membros do PL, por exemplo, seguem a mesma linha que sustentou os pedidos de CPI do Banco Master, argumentando que tudo deve ser investigado.
O pastor Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, foi incisivo: “Por favor, Vorcaro, delate todo mundo! Sejam políticos, pastores, empresários, ministros do STF, etc. Em nome de Jesus”.
No entanto, parte do bolsonarismo expressa ceticismo, acreditando que Vorcaro pode optar por proteger suas relações com ministros do STF, delatando apenas políticos. Há receios de que uma delação que envolva o STF ou a PGR não seja homologada, como uma forma de preservar as autoridades.
Parlamentares do PL, que estão em disputa com o STF, especialmente com o ministro Alexandre de Moraes, enxergam na delação uma chance de expor o que consideram corrupção na corte, fortalecendo assim seu discurso a favor do impeachment de ministros. Alguns membros da direita também minimizam a gravidade de possíveis revelações sobre a Igreja Batista da Lagoinha e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), que utilizou um avião vinculado ao dono do Banco Master em compromissos durante o segundo turno de 2022. Nas redes sociais, Ferreira se manifestou positivamente em relação à delação, afirmando que Vorcaro não deixaria de delatar ninguém.

