Pesquisa e tradição: o diálogo entre cultura alimentar e território
Em 18 de março, o auditório da Secretaria de Estado da Agricultura e Pecuária (Seagri), em Maceió (AL), acolheu uma roda de conversa que reuniu pesquisadores da Embrapa Alimentos e Territórios e especialistas em cultura alimentar. Entre os convidados estavam os antropólogos Raul Lody, curador do Museu da Gastronomia Baiana do Senac Bahia, e Vanessa Moreira, Coordenadora de Cultura Alimentar da Escola de Gastronomia Social Ivens Dias Branco, de Fortaleza (CE). O encontro fez parte do evento Território à Mesa: Pesquisa e Cultura Alimentar, que buscou aprofundar reflexões sobre como a cultura alimentar se entrelaça com o território e a identidade.
Raul Lody e a conexão entre território, memória e gastronomia
O antropólogo Raul Lody abriu a programação com uma palestra que explorou as raízes teóricas da gastronomia, destacando sua dimensão simbólica e social para além da função biológica da alimentação. Ele resgatou o pensamento do intelectual Gilberto Freyre, que valorizou as tradições regionais e evidenciou as influências africanas, especialmente do norte da África, na formação dos sistemas alimentares brasileiros, contrapondo abordagens que negligenciam outras matrizes culturais, como a indiana.
Lody também aprofundou o conceito de território em suas múltiplas facetas — geográfica, cultural e simbólica —, relacionando-o diretamente às práticas alimentares. Como exemplo, mencionou os engenhos do Nordeste, que funcionavam como verdadeiros “feudos”, onde a produção de bolos, com mais de 50 denominações só em Pernambuco, simbolizava uma forma de afirmação de poder regional.
Ao revisitar obras de Freyre como “Nordeste”, “Açúcar” e “Sobrados e Mucambos”, o antropólogo contextualizou essas ideias dentro do cenário cultural dos anos 1920, destacando o diálogo entre o modernismo e o regionalismo. Citou também influências de pensadores como Josué de Castro e Câmara Cascudo, que marcaram sua trajetória e sua obra “Águas de Comer”.
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Raul Lody enfatizou o valor do resgate etnográfico para preservar a memória cultural e gastronômica, apontando que elementos históricos permanecem presentes na contemporaneidade. Para ele, a cultura brasileira mantém traços barrocos vivos, exemplificados por manifestações como o maracatu pernambucano. Finalizou ressaltando a cozinha como um espaço vital de aprendizado e pertencimento, capaz de fortalecer a identidade das pessoas: “A comida ajuda muito a localizar as pessoas e criar nichos de identidade”.
Vanessa Moreira e a cultura alimentar como política pública e transformação social
Na sequência, Vanessa Moreira detalhou a atuação da Escola de Gastronomia Social Ivens Dias Branco, ligada à Secretaria da Cultura do Ceará, como uma iniciativa de política pública voltada para a educação e o desenvolvimento territorial. Coordenadora de Cultura Alimentar e Pesquisa da escola, destacou o Laboratório de Criação em Cultura Alimentar e Gastronomia, criado em 2018, que integra saberes tradicionais e ciência para fortalecer sistemas alimentares locais.
A pesquisadora explicou como a escola enfrenta desafios como a homogeneização dos alimentos, a perda de referências culturais e a desvalorização dos saberes tradicionais, buscando promover a integração entre ciência e práticas culturais. Para Vanessa, manter viva a cultura alimentar é fundamental para preservar ofícios e saberes, garantindo dignidade às comunidades envolvidas.
Ela também ressaltou a relevância da metodologia de pesquisa em cultura alimentar, que contempla as dimensões sociais, simbólicas e econômicas da alimentação. Ao discutir as variadas representações da comida — desde a comida de festa, de rua, de casa até alimentos emblemáticos —, Vanessa destacou como esses elementos ajudam a compreender as dinâmicas culturais dos territórios.
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A antropóloga chamou atenção para os condicionantes sociais que moldam os hábitos alimentares, observando que as escolhas alimentares são influenciadas por um repertório de acesso determinado socialmente. Ao dialogar com autores como Jesús Contreras, ressaltou a alimentação como um sistema complexo que envolve produção, consumo, cultura e sociedade. Para ela, a pesquisa é ferramenta crucial para fortalecer identidades e fomentar sistemas alimentares mais sustentáveis.
Reflexões finais: cultura alimentar, políticas e fortalecimento de identidades
A roda de conversa evidenciou a importância da cultura alimentar para compreender os territórios e construir políticas públicas integradas. Ao reunir diferentes perspectivas teóricas e experiências práticas, o evento reforçou o papel da pesquisa e da formação para valorizar saberes tradicionais, consolidar identidades e promover o desenvolvimento sustentável.
Além disso, destacou a necessidade do diálogo entre instituições e especialistas para ampliar a compreensão dos sistemas alimentares brasileiros, reconhecendo sua diversidade como patrimônio cultural e recurso estratégico para o país. Para o público, a iniciativa sugere caminhos para acessar e valorizar a cultura alimentar local, fortalecendo a circulação de saberes e a conexão com o território.

