Análise da Corrupção e suas Ramificações
A retrospectiva de 2025 do Brasil para o Índice de Percepção da Corrupção, elaborado pela Transparência Internacional, revela um verdadeiro annus horribilis. Segundo os pesquisadores, o país enfrentou ‘um cenário especialmente crítico, marcado pela intensificação da atuação do crime organizado, pelo avanço de esquemas de macrocorrupção e por disputas institucionais que testaram os mecanismos de controle, transparência e responsabilização’. O Brasil parece ter alcançado um estágio avançado de captura institucional do sistema político e judiciário, com uma degradação profunda, cumulativa e endêmica. Embora existam remédios para esses problemas, muitos deles são frequentemente neutralizados.
Um exemplo emblemático dessa situação são as fraudes multibilionárias do Banco Master, que expõem a engrenagem da corrupção. As evidências sugerem que o controlador da instituição, Daniel Vorcaro, estabeleceu uma rede de influências nas esferas de poder, utilizando brechas regulatórias a seu favor. Nesse cenário, técnicos do Banco Central acabaram isolados, especialmente quando suas decisões contrariaram interesses poderosos.
A crise que deveria seguir um roteiro habitual de liquidez bancária se transformou em uma anomalia institucional, marcada por interferências atípicas, deslocamentos de competências, sigilos injustificáveis e uma mobilização atípica de instâncias que, em episódios anteriores, mantiveram distância das decisões técnicas do regulador.
Corrupção na Gestão Ordinária do Estado
Além disso, os descontos ilegais, também multibilionários, em aposentadorias do INSS promovidos por sindicatos e associações revelaram a corrupção como parte do cotidiano administrativo. Em vez de depender de obras estatais faraônicas ou de propinas cinematográficas, o roubo prosperou na gestão ordinária do Estado, aproveitando-se da fragilidade dos controles internos e da inércia administrativa, mesmo diante de alertas constantes.
A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI), que deveria esclarecer responsabilidades e corrigir falhas estruturais, acabou se tornando refém de constrangimentos e se mostrou incapaz de atacar os núcleos decisórios responsáveis. O escândalo em questão ilustra um padrão preocupante: a corrupção se dissemina ao longo do tempo, envolve vários governos e atravessa espectros partidários, resultando em um verdadeiro festival de ‘telhados de vidro’, que dilui a responsabilização e desmobiliza o ímpeto corretivo.
Contribuições dos Três Poderes para a Crise
A degradação no combate à corrupção não é atribuída a um único poder, mas sim a vícios presentes no Legislativo, Executivo e Judiciário, que se retroalimentam. Cada um, por suas vias distintas, contribui para um ambiente de baixa responsabilização e alta tolerância institucional. No topo da Justiça, as anulações em massa das condenações da Lava Jato, as mudanças jurisprudenciais erráticas, a concentração de poder e a naturalização de conflitos de interesse transformaram o Judiciário, antes visto como uma instância de contenção, em um fator de desestabilização do sistema anticorrupção. Isso ocorre não apenas por corrupção direta, mas pela perda de credibilidade, previsibilidade e imparcialidade.
Por outro lado, o Executivo encara a corrupção como um problema de reputação, e não como um risco sistêmico. Agências de controle são enfraquecidas, aliados suspeitos são protegidos em nome da “governabilidade”, e os discursos não se traduzem em prioridades administrativas, resultando em respostas tardias e defensivas aos escândalos. Assim, o Congresso se estabelece como um epicentro da corrupção, não apenas por crimes isolados, mas pela institucionalização de incentivos perversos: opacidade, dispersão de responsabilidades e blindagem corporativa.
O Que Pode Ser Feito?
Embora haja uma sensação de desesperança, o balanço não é inteiramente sombrio. A Operação Carbono Oculto, por exemplo, conseguiu atingir as engrenagens financeiras do crime organizado. O Supremo Tribunal Federal (STF) procura recuperar alguma racionalidade em relação às emendas parlamentares, e sob pressão popular, o Senado desistiu da chamada ‘PEC da Blindagem’. Apesar de os anticorpos existirem, eles estão debilitados e atuam em desvantagem.
Ao somar todos esses fatores, prevalece um Executivo conivente, um Legislativo opaco e um Judiciário desmoralizado como árbitro imparcial, criando um terreno fértil para que a corrupção continue a prosperar. A necessidade de reverter essa situação é urgente e demanda uma ação coletiva eficaz.

