Um passo significativo contra a violência policial
Nesta terça-feira (5), o Tribunal do Júri de Maceió fez história ao condenar os policiais militares envolvidos no sequestro, tortura e assassinato do jovem Davi da Silva, um caso que abalou Alagoas e reverberou por todo o Brasil. Davi, que tinha apenas 17 anos e desapareceu em agosto de 2014 após uma abordagem na comunidade do Benedito Bentes, tornou-se um símbolo da luta contra a brutalidade policial e a impunidade que frequentemente acompanha ações de agentes do Estado. Após um julgamento que durou dois dias, o conselho de sentença decidiu pela culpabilidade dos envolvidos, enviando uma mensagem clara de que a sociedade não aceita mais o uso da farda como justificativa para crimes hediondos.
A condenação abrange os crimes de homicídio qualificado, tortura e ocultação de cadáver, representando uma vitória parcial para a família de Davi, que, após enfrentamentos intermináveis de luto e busca por respostas, perdeu também a mãe dele, Maria José, que faleceu em 2025 sem ter visto justiça ser feita.
Rompe-se a lógica da proteção institucional
Desde o desaparecimento de Davi, o caso foi amplamente denunciado pela Unidade Popular, um partido cuja luta por justiça e contra a impunidade foi incansável. O professor e militante Magno Francisco, primo da vítima, ressaltou a importância das manifestações e unificações de esforços de movimentos sociais e amigos ao longo desses anos. “A decisão quebra a lógica que frequentemente protege policiais envolvidos em abusos, enviando um recado de que o sumiço de corpos e o silenciamento de testemunhas não são mais aceitos,” afirmou Magno, fazendo ecoar a voz de justiça não apenas para Davi, mas para tantos jovens cujos nomes foram esquecidos.
A condenação, em meio a um histórico de absolvições em casos similares, reacende o debate sobre a desmilitarização das polícias em Alagoas e no Brasil. A estrutura militarizada da polícia, herdada de regimes autoritários, sustenta a nociva ideia de um “inimigo interno”, onde comunidades periféricas se tornam campos de batalha e os cidadãos, alvos preferenciais.
Desafios enfrentados no tribunal
No tribunal, a promotora Lídia Malta destacou-se em um ambiente marcado por hostilidades, sendo a única mulher presente na bancada de discussões. Apesar das interrupções e tentativas de desqualificação, Lídia manteve uma postura firme e técnica, reforçando que o Ministério Público não fecharia os olhos para ações criminosas envolvendo agentes de segurança. Sua atuação foi crucial para o desenrolar do processo, mostrando que a justiça pode, sim, ser feita.
Jardel Queiroz, representante do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), acompanhou de perto os dois dias de julgamento ao lado da família de Davi. Ele observou o clima tenso no tribunal, onde o medo e a coragem coexistiam em um espaço dominado por policiais. “Era quase uma esperança solitária, em meio a um tribunal que representa os ricos. A cada momento, os familiares se sentiam acuados, enfrentando os assassinos de Davi diretamente,” descreveu Jardel, refletindo sobre a dor e o sofrimento que a família sofreu ao longo dos anos.
A dualidade da vitória e da dor
Com a condenação, um ciclo de espera finalmente chegou ao fim, mas o peso emocional ainda é intenso. “Durante esses dois dias, a família reviu todo o sofrimento que vivenciaram, desde o desaparecimento de Davi até as ameaças que enfrentaram,” disse Jardel. Ele lembrou ainda da ausência da mãe de Davi, que não pôde testemunhar a justiça sendo feita.
A vitória é significativa, mas o clima de comemoração foi ofuscado pelo receio que permeia a luta dos familiares. “Eles mal conseguiram expressar sua alegria. A saída do tribunal foi marcada pela tensão, com a presença intimidatória de viaturas e policiais,” completou Jardel.
Embora a condenação traga um pouco de alívio, a pergunta que persiste em Alagoas por mais de uma década continua sem resposta: “Onde está o corpo de Davi?”. A luta dos movimentos sociais agora se direciona para garantir que a responsabilização penal dos envolvidos seja acompanhada de reformas estruturais que assegurem o controle externo da atividade policial e o fim da violência armada contra as comunidades vulneráveis.

