O Impacto da Extração de Sal-Gema em Maceió
Uma das cenas marcantes do filme “Bye Bye Brasil”, dirigido por Cacá Diegues, ilustra bem a realidade enfrentada pelos cidadãos de Maceió. No enredo, os artistas mambembes, interpretados por José Wilker e Fábio Jr., se deparam com a poluição na praia do Pontal da Barra, alertados pelo personagem Lorde Cigano sobre os riscos das águas contaminadas pela fábrica da Salgema, em 1979. À época, já era evidente o impacto negativo da indústria, cuja operação, sob a gestão da Braskem, culminou em um dos maiores desastres socioambientais do Brasil.
Cidade Rachada, obra da jornalista Cristina Serra, oferece uma análise detalhada de como a conivência entre governos e interesses empresariais resultou no colapso de cinco bairros de Maceió, que se afundaram devido às cavernas geradas pela extração indiscriminada do sal-gema, essencial para a produção de cloro, soda cáustica e PVC. O livro-reportagem retrata as consequências catastróficas de uma exploração que começou em 1976, com a instalação da Salgema, um empreendimento que posteriormente se tornou a Braskem em 2002.
O complexo industrial, que conecta a extração de sal-gema no subterrâneo a uma unidade de produção de clorossoda, operou durante décadas com pouca supervisão. Em 3 de março de 2018, a situação se agravou: um tremor na terra resultou em fissuras enormes em edificações de cinco bairros de Maceió, como Bebedouro e Pinheiro, afetando cerca de 14,5 mil imóveis e forçando a remoção de 60 mil pessoas.
A Luta dos Atingidos e a Indiferença Corporativa
Em “Cidade Rachada”, Cristina Serra apresenta as histórias de mais de cem pessoas que tiveram suas vidas devastadas. Relatos de tragédias pessoais, como suicídios e mortes devido à falta de apoio, revelam a gravidade da situação. Os atingidos foram forçados a assinar acordos com a Braskem, recebendo apenas 40 mil reais por imóveis que, na maioria das vezes, representavam suas vidas. A repórter também discute as tentativas da empresa em desacreditar o relatório do Serviço Geológico do Brasil, que frisou sua responsabilidade pelo desastre.
Embora uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) tenha indiciado em 2024 três empresas e 11 indivíduos por crimes ambientais, até o momento, ninguém enfrentou punições efetivas. Essa situação expõe a ligação perigosa entre o setor público e privado no Brasil, onde a regulação é frouxa e a fiscalização é quase inexistente. “O marco regulatório é frouxo, a fiscalização ausente e a aplicação de multas e sanções aquém do necessário para inibir novos crimes”, observa o jornalista André Trigueiro, que assina a apresentação do livro.
Reflexões Finais
Em meio a essa devastação, uma frase impactante, encontrada por Serra em frente a uma das casas desapropriadas, ecoa a indignação dos moradores: “Braskem, me diz quanto vale o sal de nossas lágrimas?” É um questionamento que se intensifica diante do silêncio e da impunidade que ainda cercam essa tragédia social.
Além de “Cidade Rachada”, outras obras também merecem destaque nesta edição. “O Século Nômade – Como a Migração Climática Transformará o Mundo”, de Gaia Vince, apresenta previsões sobre a crise climática e seus efeitos na vida humana. Marcelo Viana, por sua vez, traz “A Descoberta dos Números”, que dá vida a conceitos matemáticos de forma envolvente. Por fim, “Lições de Realismo Esperançoso”, uma coletânea de frases de Ariano Suassuna, organizada por Carlos Newton Júnior, oferece uma reflexão valiosa e cheia de sabedoria.

