Reflexões sobre a decadência da festa popular na capital alagoana
Em meio a poucos foliões fantasiados, cadeiras espalhadas pela praça e o som distante do frevo, o carnaval de rua de Maceió vive uma fase de dificuldades, evocando memórias nostálgicas para aqueles que testemunharam seus dias de glória. Na praça Dois Leões, situada no bairro de Jaraguá, em 15 de fevereiro de 2026, os cidadãos mais velhos lamentam a falta de iniciativas que valorizem as tradições históricas da festa.
“É difícil comparar, é realmente triste ver a situação atual. Antes, a festa acontecia na Avenida, com multidões de turistas e muita animação. Agora, estamos aqui com um palco em uma praça, o que não é carnaval. Isso é uma vergonha”, desabafa Fernando Veras, um aposentado que vive em Maceió há 66 anos.
Nas principais vias da orla, nos bairros de Pajuçara e Ponta Verde, alguns blocos ainda surgem, mas com pouca divulgação e baixa adesão. À noite, a programação no Jaraguá se resume a um palco modesto, com eventos anunciados de forma tardia. As festas foram agendadas para os dias 14 a 17 de fevereiro, mas a divulgação só chegou ao público no dia 13, através de uma postagem no Instagram da Fundação Municipal de Ação Cultural, ligada à Prefeitura de Maceió.
Esse aviso tardio pegou de surpresa não só os foliões, mas também os comerciantes locais.
“Eu soube da festa na quinta-feira (12) e corri de Benedito Bentes para garantir meu lugar aqui. Investi mais de R$ 2 mil e não consegui vender nem mil. É desolador, as pessoas estão ausentes, e quem está em Maceió nem sabe que isso está acontecendo”, conta Jaqueline Santana, autônoma que trabalha vendendo lanches em eventos. Ela ainda aponta um dos principais problemas: a inadequação da programação. “É carnaval, e estava tocando rock há pouco tempo. Quem vai querer ficar aqui? Ontem houve uma banda boa, mas hoje? Não vendi quase nada até agora.”
A manifestação cultural popular que outrora vibrava na Avenida da Paz, uma das principais artérias da capital alagoana, hoje se restringe à praça Dois Leões em Jaraguá. Uma semana antes, as mesmas ruas que levam ao palco estavam repletas de foliões durante os blocos do Jaraguá Folia, embalados pelos sons vibrantes de marchas de frevo e pela alegria de grupos reunidos em festa — um esquenta para o Pinto da Madrugada, que aconteceu no sábado (07), atraindo centenas de pessoas pelas orlas de Ponta Verde e Pajuçara, acompanhados de outros blocos.
“Olho para o carnaval de dez anos atrás e percebo que o que temos hoje é insignificante. Era uma festa linda, com multidões na avenida e pessoas se esforçando para estarem nas escolas de samba. Hoje, nada disso existe”, lamenta Vânia Santos, camareira que reside em Maceió há 32 anos.
A programação do Jaraguá durante o carnaval teve como ponto alto as apresentações de maracatus e escolas de samba, que trouxeram cor e tradição à praça Dois Leões. Em 15 de fevereiro, as escolas Jangadeiros Alagoano, Gaviões da Pajuçara, Girassol, 13 de Maio e Dona Zezé foram as responsáveis pela animação do local.
Diferentemente de grandes capitais como Rio de Janeiro e São Paulo, que realizam desfiles grandiosos durante o carnaval, Maceió adota um calendário diferente, com as apresentações das escolas programadas para o final de fevereiro, quando o carnaval já passou.
A professora Aline Sâmia, porta-bandeira há 25 anos da Gaviões, destaca o risco de perda desse legado cultural: “Convido a todos a prestigiar os desfiles e a lutar por essa tradição que está se esvaindo aqui em Alagoas. Não temos mais a valorização que merecemos; por isso, faço um apelo em prol de todas as escolas. Não deixem que essa cultura desapareça.”
José Ronailton Alves, presidente da Unidos da Dona Zezé, observa que a cultura resiste por amor à arte: “O que nos move é a vontade de apresentar um grande espetáculo e a esperança de fazer nossa escola crescer a cada ano. As dificuldades são o que nos motivam.”
Um calendário confuso, mal estruturado e divulgado. Assim é Maceió, a capital que vive de prévias e pós de um carnaval que, em essência, parece não existir mais.

