Uma Celebração da Tradição do Samba
Mais de quatro décadas após sua formação como uma simples roda de amigos, o grupo Boca de Forno está prestes a realizar um reencontro histórico. O projeto “Quando tudo começou – 1980 Boca”, anunciado nas redes sociais na última segunda-feira, dia 26, promete reunir diversos músicos que já passaram pela banda, além de participações especiais. O grande show está agendado para acontecer na Fábrica de Eventos, localizada no bairro de Jaraguá, no dia 28 de março.
A origem do Boca de Forno remonta ao início dos anos 80, quando a música era marcada pelo encontro entre amigos e improvisos. Neco, o primeiro vocalista e um dos fundadores, recorda que tudo começou de forma despretensiosa, em reuniões que não tinham qualquer pretensão profissional.
“O Boca de Forno nasceu como uma brincadeira entre amigos. Tocávamos na casa de um, de outro, em barzinhos, sem cachê, apenas pela diversão e pela cerveja. Em determinado momento, decidimos profissionalizar a banda e transformar essa paixão em trabalho. Muitos saíram (risos), e tivemos que repensar tudo”, relembra Neco.
Com o passar do tempo, a banda começou a se apresentar em quadras de escolas de samba, clubes e casas noturnas de Maceió. Neco conta que, ao chegarem ao bar Marquês, a casa estava sempre cheia, e a banda se consagrou. “Quando chegamos ao Marquês, além da casa cheia, nos consolidamos como banda. O restante da história vocês já conhecem”, diz Neco.
Uma Escola de Músicos
Ao longo desses 40 anos, o Boca de Forno tornou-se uma verdadeira escola musical. Vários músicos que passaram pela banda possuem um reconhecimento quase imediato no meio do samba. Negro Mir, surdista que fez parte da banda até 1999, afirma que o grupo transcende o conceito de formação fixa e se tornou uma referência. ”O Boca de Forno não sou eu, não é nenhum integrante isolado. O Boca de Forno é um selo de qualidade. Todos que passaram por aqui têm esse selo”, destaca.
Ele lembra que a exigência musical da banda sempre foi um diferencial, especialmente sob a liderança de Marcão, cavaquinista e um dos fundadores. “A cobrança sempre foi elevada. Quem chegava aqui vinha para aprender e se aperfeiçoar. Nós tocávamos tudo com muita precisão e cuidado. Isso formou muita gente”, acrescenta.
Antes da popularização da internet e das plataformas de streaming, o Boca de Forno teve um papel crucial na disseminação do samba em Maceió, apresentando músicas que, na época, não faziam parte das rádios locais. “O público não tinha acesso fácil aos grandes sambas como hoje. Nós trazíamos músicas de artistas como Jorge Aragão e Fundo de Quintal. Quando esses músicos vinham se apresentar em Maceió, ficavam impressionados ao ver a plateia cantando até o lado B dos discos”, recorda Negro Mir.
Momentos Memoráveis com o Público
A conexão da banda com o público é especialmente forte, e parte disso se deve ao improviso. Val Boca, segundo vocalista que começou a cantar em 1993, ficou famoso pelas intervenções criativas durante as músicas, onde chamava o nome da banda em versinhos que marcaram a trajetória do grupo. “Esses trechinhos surgiam naturalmente e sempre faziam sucesso. Muitas vezes, a plateia já estava cantando antes mesmo de eu puxar”, revela Val, que entrou na banda após uma participação improvisada e permaneceu por 19 anos.
Para os frequentadores dos shows, o Boca de Forno representa momentos marcantes da vida. A policial civil Vanine Souza, de 39 anos, recorda que, durante a adolescência, os domingos eram irresistivelmente voltados para a música do grupo. “Era quase certo que todo domingo a gente ia ao Marquês D´ Latravéia, onde a galera se encontrava. Até hoje, quando ouço as músicas que o Boca tocava, me pego cantando: ‘Boca de Forno pra você, aqui no Marquês é legal’”, compartilha animadamente, uma fã nostálgica.
Um Legado Cultural
De acordo com Karina Liberal, produtora do evento e fã do Boca de Forno desde sua juventude, o show transcende a celebração. “Produzir um show do Boca de Forno é revisitar um período muito feliz da minha vida e, ao mesmo tempo, contar a história do samba e do pagode alagoano. Será um dia realmente especial para minha geração”, afirma.
O evento “Quando tudo começou – 1980 Boca” se configura como um marco na trajetória dos músicos e na memória dos fãs alagoanos, que mantêm viva a chama do samba e do pagode. Esse reencontro de gerações no palco celebra uma história construída ao longo de décadas, projetando um futuro promissor para uma banda que ainda tem muito a oferecer.

