História e Resistência Cultural
O Bloco do Bobo, uma das mais tradicionais manifestações culturais de Maceió, resiste bravamente ao afundamento do solo, uma consequência dos danos ambientais provocados pela extração de sal-gema na região. A origem do bloco remonta à infância de Antônio Severino, seu fundador, que se tornou referência na promoção cultural da comunidade. Inspirado por personagens caricatos e “monstros fofões”, Antônio e outros jovens começaram a elaborar fantasias improvisadas com sacos de nylon, cordas amarradas na cintura e latas que serviam como instrumentos musicais.
“Baseado naqueles monstrinhos fofões, a gente começou a trabalhar o bobinho com uma roupinha de saco de nylon, a corda amarrada na cintura, batendo umas latas. Começamos quando crianças. Depois, já adultos, fomos pegando o pique, gostando disso e moldando esse carnaval até chegar aqui”, relembrou Antônio em uma entrevista à TV Asa Branca Alagoas.
Para além de um simples desfile, o Bloco do Bobo se configura como um espaço vital de formação e fortalecimento comunitário. A própria população participa ativamente da confecção das fantasias e da organização das alas, o que ajuda a manter viva a tradição no bairro.
A Produção Coletiva do Carnaval
De acordo com Antônio Severino, o processo de criação do bloco é coletivo e contínuo. “É produção da própria comunidade. Eles se juntam para delegar funções e assim se movimenta o nosso carnaval. Eu dou oficinas todas as segundas e quintas-feiras”, afirmou. Essas oficinas não apenas alimentam a tradição, mas também incentivam a inclusão e a união entre os moradores.
Durante as festividades, essa colaboração se materializa em um desfile vibrante, repleto de cores e ritmos. O bloco conta com diversas alas que proporcionam identidade ao cortejo, como o Batuque das Poderosinhas, o Boi Caprichoso, a Ala dos Narcóticos Anônimos e o Bloco da Inclusão. Cada uma dessas alas traz consigo uma narrativa única que se entrelaça na grandiosa tapeçaria cultural do carnaval maceioense.
Desafios e Resiliência
Entretanto, o caminho para a manutenção dessa tradição não foi apenas repleto de festas. O Bloco do Bobo se destaca como um dos poucos grupos que conseguiram resistir às adversidades resultantes dos danos ambientais e do afundamento do solo, que afetaram bairros como Mutange, Bebedouro e Pinheiro. A desocupação desses locais impactou diretamente na dinâmica cultural da região, levando muitos grupos a desaparecerem.
“Os bobos que a gente tinha vinham do Alto das Colinas, desciam a Chã de Bebedouro, passavam no Mutange. Quando acabou com esses bairros, acabou com o movimento e com a população que fazia parte do carnaval com a gente”, explicou Antônio, refletindo sobre a perda significativa da comunidade que antes participava das festividades.
Apesar de muitos grupos terem desaparecido devido ao esvaziamento das comunidades, o Bloco do Bobo permaneceu ativo no Bom Parto, mantendo os ensaios, oficinas e desfiles, mesmo diante de tantas dificuldades. A determinação de seus integrantes tem sido fundamental para preservar esse patrimônio cultural.
A Cor e a Alegria como Forma de Expressão
Embora a comunidade ainda enfrente muitos desafios, cada detalhe dos figurinos carregam significados profundos. A escolha das cores e o design dos personagens são cuidadosamente pensados como uma maneira de transformar a dor em expressão cultural. “Além da pandemia, que deixou todo mundo triste, ainda vem a violência. Para trabalhar esse sentimento, esse bobo não é um bobo bizarro, ele é um bobo alegre. Tem uma cara sorridente, é colorido, mexe com os sentimentos da comunidade”, explicou Antônio, ressaltando a importância da alegria como forma de resistência.
O Bloco do Bobo se tornou, portanto, um símbolo de resiliência e luta, mostrando que, mesmo em meio a dificuldades, a cultura e a tradição têm o poder de unir uma comunidade e trazer esperança.

