Como Mestres Artesãos de Capela Mantêm a Cultura Alagoana Viva e Sustentável
Na cidade de Capela, na Zona da Mata alagoana, a tradição do artesanato em barro tem se revelado uma fonte de sustento e identidade cultural. Mestres como João das Alagoas e Sil da Capela são exemplos vivos dessa arte, transformando simples pedaços de barro em peças que cruzam fronteiras e levam a cultura local para o mundo.
O barro, extraído do quintal, se transforma em arte sob as mãos habilidosas desses artesãos, que, ao longo de gerações, se dedicam a passar adiante o conhecimento e a técnica. Para eles, essa prática não é apenas um meio de vida, mas uma forma de preservar a história e a cultura alagoana.
João das Alagoas é um dos principais nomes desse movimento. Com 58 anos de experiência, ele é reconhecido como Patrimônio Vivo do estado. Em uma entrevista, João comentou sobre sua jornada: “Eu acredito que foi o barro que me escolheu. Sempre gostei de arte e a modelagem do barro se tornou uma paixão. Às vezes, me surpreendo com o que consigo criar.” Sua trajetória é marcada por prêmios e exposições em museus internacionais, incluindo uma menção honrosa na Argentina.
Ao adentrar Capela, logo se vê a importância do artesanato local. Duas esculturas gigantes de um bumba-meu-boi e uma jaqueira na entrada da cidade simbolizam a força cultural do lugar, homenageando também artistas que contribuíram para a tradição.
Transformações Pessoais Através da Arte
Sil da Capela, uma das aprendizes de João, é um exemplo de como o artesanato pode mudar vidas. Antes de conhecer o mestre, Sil trabalhava como cortadora de cana e não tinha contato com o barro. “Nunca tinha visto um boneco de barro. Quando conheci o mestre João, me encantei e comecei a querer fazer”, lembrou. Suas esculturas de jaqueiras, inspiradas em suas memórias de infância, agora são conhecidas internacionalmente.
“O corte de cana é uma profissão pouco reconhecida e mal remunerada. A arte me trouxe a um mundo que eu jamais teria acesso”, revelou Sil, visivelmente emocionada ao falar sobre sua transformação.
O impacto do artesanato na vida de Sil se estendeu à sua família. Adriana Maria Siqueira, sua irmã, também decidiu seguir o caminho do barro após aprender com João. “É um orgulho saber que o artesanato se tornou meu sustento. Quando os clientes me reconhecem, sinto que meu trabalho faz a diferença”, disse Adriana.
A Arte como Caminho para a Independência
Nena, outra artesã que teve sua vida mudada pelo aprendizado, hoje é reconhecida como Mestra da Cultura Alagoana. Antes, ela vendia galinhas para complementar a renda da família durante a entressafra da cana-de-açúcar. Após se dedicar ao artesanato, ela passou a produzir esculturas de girassóis. “Hoje, posso dizer que consegui criar meus filhos com meu trabalho. Valeu a pena cada esforço”, declarou, emocionada.
Victor, também aluno de João, se especializou na criação de personagens do folguedo alagoano, mostrando como a arte pode ser um meio de preservação cultural. “Aprender com o mestre foi um marco na minha vida. A arte é minha identidade”, afirmou.
Em Capela, a prática do artesanato vai além de uma simples atividade econômica. É um verdadeiro instrumento de transformação social e cultural. Para esses artesãos, o que começa no quintal de casa não é apenas barro; é a própria história da Zona da Mata alagoana que ganha vida, atravessando fronteiras e levando consigo toda a riqueza cultural de Alagoas.

