A Trajetória Inspiradora de Ane Oliva
No cotidiano da Escola Estadual Romeu de Avelar, em Maceió, a rotina é marcada por papéis, planilhas e registros. Contudo, por trás da gestão administrativa, há uma história surpreendente. Ane Oliva, secretária escolar e servidora da Secretaria de Estado da Educação (Seduc) há 15 anos, não é apenas responsável pela organização da escola; ela também se destaca como atriz em um filme indicado ao Oscar: “O Agente Secreto”, dirigido por Kléber Mendonça Filho, que concorre em quatro categorias – Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator (Wagner Moura) e Melhor Elenco.
À primeira vista, a combinação de uma funcionária pública com uma carreira cinematográfica pode parecer inusitada. Porém, a trajetória de Ane é fruto de anos de dedicação ao teatro e ao audiovisual alagoano, onde ela se destacou em diversas iniciativas culturais em Maceió. Sua história é um reflexo do crescimento do cinema no estado, que, nas últimas décadas, ganhou impulso e reconhecimento.
Da Cena do Teatro às Telas do Cinema
Considerando-se uma atriz antes de tudo, Ane Oliva iniciou sua carreira no teatro há mais de trinta anos, quando se inscreveu no Curso de Formação de Atores da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Foi nesse ambiente que ela fez suas primeiras experiências artísticas e encontrou seu caminho para o cinema. Durante muitos anos, Ane se dedicou ao teatro de rua, atuando em apresentações que transformavam espaços públicos em palcos vibrantes. Integra, até hoje, o renomado grupo Joana Cajuru, um dos mais tradicionais de Alagoas.
Naquela época, sonhar com uma carreira no cinema era, para muitos artistas da região, uma esperança distante. A produção audiovisual era escassa e dependia de incentivos esporádicos. Contudo, Ane teve a oportunidade de participar de curtas-metragens, como “Desalmada e Atrevida”, dirigido por Pedro da Rocha, além de outros projetos independentes que pipocavam no cenário alagoano.
O Crescimento do Cinema Alagoano
A última década marcou uma mudança significativa no panorama da produção audiovisual em Alagoas. A chegada de novos editais e políticas de incentivo, juntamente com a colaboração de equipes externas, deu um novo fôlego ao cinema local. Um marco nesse processo foi o início das filmagens de “Serial Kelly”, em 2017, sob a direção de René Guerra, que buscou reunir um elenco predominantemente alagoano. Para Ane, essa foi uma oportunidade rara: “Foi um divisor de águas na nossa carreira”, ressaltou.
As conexões criadas no meio artístico são fundamentais, e após “Serial Kelly”, Ane recebeu novos convites para produções. Sua participação em “Propriedade”, dirigida por Daniel Bandeira e estrelada por Malu Galli, foi um momento marcante que a fez perceber que poderia atuar em projetos importantes fora de sua cidade. “Eu chorava de felicidade”, recorda. “Foi quando eu pensei: é possível.”
A Educação e o Cinema em Harmonia
Apesar da crescente carreira no cinema, Ane Oliva não se afastou de sua função na Seduc. Desde 2005, ela atua como secretária escolar, um papel que envolve uma série de tarefas administrativas essenciais para o funcionamento da instituição. No entanto, Ane não enxerga sua atuação apenas sob a perspectiva burocrática. “Minha alma é de artista”, afirma.
Antes de fazer parte da equipe da escola, ela já havia ensinado teatro em projetos culturais, mostrando que sua atuação na Educação sempre andou de mãos dadas com a arte. Para Ane, Cultura e Educação são inseparáveis: “Um país não se desenvolve se elas não estiverem caminhando juntas”, argumenta. Essa visão a levou a idealizar projetos culturais, como o Cineclube Conexões Pedagógicas, que utiliza o cinema como uma ferramenta de aprendizado.
A Chegada de “O Agente Secreto”
A participação de Ane em “O Agente Secreto” se deu de forma inesperada. Ao saber pela internet sobre a seleção de elenco, enviou seu material e, em seguida, foi chamada para um teste. A cena, inspirada no trágico caso do menino Miguel, exigia uma profundidade emocional intensa. Após enviar uma gravação, Ane recebeu uma mensagem da produção expressando como sua atuação a emocionou.
Trabalhar com Kléber Mendonça Filho era um desejo antigo de Ane, e a presença de outros alagoanos no elenco, como Igor Araújo, Albert Tenório e Aline Marta, trouxe uma sensação de pertencimento. Com a vitória no Festival de Cannes, onde o filme ganhou prêmios significativos, e agora sua indicação ao Oscar, Ane celebra a conquista do cinema brasileiro em um palco internacional.
Uma Vitória para Todos
Enquanto aguarda o resultado do Oscar, Ane mantém sua rotina, dividindo-se entre a escola, os projetos culturais e a atuação. Para ela, o cinema brasileiro já alcançou uma vitória significativa ao ser reconhecido. “Só de estarmos lá, pelo segundo ano consecutivo, isso já é uma vitória”, enfatiza. A comunidade escolar, em peso, torce por Ane e celebra suas conquistas. “Estamos todos muito felizes por ela e pelas premiações conquistadas pelo filme”, destaca Sílvia Bueno, gestora-geral da escola.

