Oportunidades e Desafios do Setor Calçadista
O aumento das tarifas impostas pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros no último ano fez com que a indústria calçadista buscasse novos mercados para manter suas exportações. Nesse contexto, o acordo entre o Mercosul e a União Europeia surge como uma alternativa promissora para o setor, que já enfrenta desafios relacionados à competitividade no mercado americano.
Para os representantes da indústria, este acordo é motivo de otimismo, pois estabelece uma base estratégica em tempos de incertezas na política internacional. O presidente-executivo da Abicalçados (Associação Brasileira das Indústrias de Calçados), Haroldo Ferreira, destaca que os calçados de couro, que correspondem a 45% dos valores exportados pelo Brasil para a União Europeia, deverão ter suas tarifas totalmente eliminadas em até sete anos. Além disso, o pacto comercial deve favorecer a diversificação da pauta exportadora brasileira, abrindo novos espaços para outros segmentos, como os calçados têxteis e sintéticos, cuja tarifa atual é de 17% nos países da União Europeia.
Dados da Indústria e Projeções Futuras
Os números de exportação de calçados brasileiros para o bloco europeu em 2025 mostram um crescimento em relação a 2024. O Brasil exportou ao menos 17,4 milhões de pares, representando um aumento de 5,2% em comparação ao ano anterior, com um lucro de US$ 105,2 milhões, uma leve alta de 0,1%, conforme dados da própria indústria.
Um estudo realizado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) revela que, ao longo de 15 anos, o acordo pode elevar as exportações de calçados do Brasil para a União Europeia em pelo menos 62%. A produção do setor deve crescer 3,2% nesse mesmo período. Ferreira acredita que o acordo tem o potencial de fortalecer as cadeias de suprimentos, agregar valor e produzir efeitos positivos para a indústria calçadista nacional. Ele ressalta que, em 2024, a União Europeia foi responsável por mais de 40% das importações mundiais de calçados.
Impactos na Competitividade do Setor
Para Ferreira, o acordo entre Mercosul e União Europeia é um indicativo de cooperação internacional que beneficiará o setor calçadista no Brasil. “Essa parceria pode aumentar a inserção e a competitividade dos calçados brasileiros no mercado europeu, que já é dominado pelo comércio intra-UE e pela forte presença asiática, que representa mais de 50% dos valores importados, além dos acordos já existentes, como o assinado com o Vietnã em 2020”, pondera.
Redução da Dependência do Mercado Norte-Americano
O economista Felippe Serigati, pesquisador da FGV Agro, aponta que o acordo Mercosul-União Europeia deve ser visto como uma estratégia de médio e longo prazo. Ele acredita que a abertura do mercado europeu pode ser uma solução viável para diminuir a dependência do mercado americano e proporcionar maior estabilidade em um cenário global repleto de disputas comerciais. “Carregar a esperança de contar com uma alternativa ao mercado dos EUA é fundamental para a indústria do calçado. Embora não seja uma mudança imediata, este acordo representa uma perspectiva concreta para a diversificação das exportações brasileiras”, conclui.

