Reflexões sobre a memória e a cidade
No contexto do Festival de Berlim, o filme ‘O agente secreto’, dirigido por Karim Aïnouz e protagonizado por Callum Turner e Elle Fanning, figura como um forte candidato ao Urso de Ouro. A crítica especializada, como destaca a revista Variety, aponta para quatro indicações ao Oscar, evidenciando seu impacto no cenário cinematográfico.
A obra de Kleber Mendonça Filho remete ao que a renomada pesquisadora Ecléa Bosi apresenta em seu livro de 1987, “Memória e sociedade: lembranças de velhos”. A ideia de que a memória se concretiza através do toque — a pedra precisa ser tocada para que o abstrato ganhe corpo — se espelha na forma como o cinema revela a urbanidade através de seus habitantes. Assim como a Tóquio de Yasujiro Ozu ou a Berlim de Wim Wenders, a representação do Recife em ‘O agente secreto’ transforma a cidade em uma moldura viva, onde os personagens e suas histórias são o verdadeiro cerne da narrativa.
Kleber Mendonça Filho constrói seu universo cinematográfico como um prato de sarapatel. Essa expressão, utilizada para descrever a mistura de gêneros em sua obra, nos leva a uma experiência rica e complexa, onde coração, vísceras e sangue se entrelaçam. Durante a sua participação no programa “Conversa com Bial”, em 2019, o diretor reconheceu o caráter miscelâneo de seu cinema, evocando influências que vão de Tarantino a Fellini, mas se distanciando delas, buscando um estilo próprio, que é ao mesmo tempo original e imperfeito.
Entrelaçamento e ousadia no roteiro
Alguns críticos levantaram questões sobre possíveis “fios soltos” no roteiro de ‘O agente secreto’, mas essa crítica pode ser vista sob uma nova luz. As linhas aparentemente desordenadas se entrelaçam de forma fluida, criando uma narrativa que provoca reflexões e discussões. Mesmo elementos como a declaração de amor a Udo Kier, que podem parecer desconectados, são prerrogativas do autor e, ao contrário de comprometer, adicionam camadas à trama.
Outro ponto debatido é a inserção do trágico Caso Miguel, onde a crueldade de uma patroa leva à morte do filho da empregada. Essa transposição ousada traz uma síntese da desigualdade social que permeia a sociedade brasileira e, ao mesmo tempo, reflete a realidade cotidiana de muitos.
O anacronismo presente em algumas cenas, como a da briga em um restaurante, também suscita discussões. A escolha de se situar em 1977, um período marcado pela ditadura, é mais do que uma simples data; é uma escolha deliberada que ilumina a tensão entre a história e a ficção.
Uma visão crítica e pessoal
A recepção ao filme muitas vezes se mistura à polarização política, um campo em que Kleber é um artista atuante. No entanto, é necessário separar a obra do autor e entender que a resistência a seu cinema pode refletir não apenas discordâncias sobre as temáticas apresentadas, mas também uma reação às suas convicções pessoais. O cinema de Mendonça Filho é uma manifestação de uma profunda reflexividade; ele provoca discussões não apenas sobre o que é visto na tela, mas sobre o que é vivido fora dela.
Entre os temas centrais da obra, destacam-se a luta de classes e a transposição da mitologia modernista para tramas concretas. O personagem Marcelo/Armando, por exemplo, se distancia da figura de Macunaíma, enquanto Dona Sebastiana, interpretada por Tânia Maria, traz uma leveza e humor necessários ao enredo, equilibrando a densidade dos assuntos abordados.
Uma obra que transcende o tempo
‘O agente secreto’ não é um filme sobre a ditadura, mas sobre o Brasil em sua essência. As questões de violência, corrupção e desigualdade são universais e atemporais, refletindo as mazelas que o país enfrenta ao longo de sua história. Com um apelo que ressoa internacionalmente, a narrativa articula elementos de suspense e drama, mantendo os espectadores cativados.
A beleza etnográfica do filme se manifesta em uma rica tapeçaria de personagens, onde cada figura tem seu destaque e importância própria. A atuação de Wagner Moura, por exemplo, é tão impressionante que transforma cada pequeno gesto em um grande ato, revelando a maestria da direção de elenco.
Por fim, a obra de Kleber não é apenas uma crítica social, mas uma celebração da complexidade da vida brasileira. O filme, ao mesmo tempo que provoca, encanta e instiga, faz renascer a esperança e a reflexão. O que resta é torcer pelo sucesso de ‘O agente secreto’ nos palcos internacionais, enquanto continua a desafiar e inspirar a audiência.

