Uma Jornada Musical Marcada pela Resiliência
“Ainda te amo demais, mas não dá, não dá mais”. Esses versos da canção “Ainda te amo demais” ecoaram com força nas festas e ruas de Maceió no começo dos anos 2000. Naquele período, a cena musical alagoana fervilhava com novos talentos, dentre os quais se destacava a maceioense Luana Freire dos Santos, conhecida carinhosamente como Luana do Reggae.
Nascida no bairro do Prado, Luana cresceu imersa em um ambiente musical. Enquanto o pai ambientava a casa com reggae, sua mãe trazia as canções de Roberta Miranda. Essa mistura de sonoridades fez com que a garota também se apaixonasse pelo forró do Mastruz com Leite, criando um universo musical rico e diversificado.
No ano de 1998, após mudar-se para o Vergel do Lago, Luana deu seu primeiro passo significativo na carreira, ao gravar o compacto Melô de Luana 99. A recepção do público foi imediata, e rapidamente a canção começou a tocar nas discotecas da região. A divulgação inicial deu-se principalmente por meio do boca a boca, das rádios comunitárias e da venda informal de CDs, tudo isso ressoando ao ritmo do reggae—um gênero musical que, embora recente, nasceu da fusão de estilos jamaicanos como o ska e o rocksteady.
Sem investimento ou apoio institucional, as músicas de Luana conquistaram seu público nas bases, especialmente nas comunidades periféricas. Essa identificação com suas letras românticas e diretas gerou uma popularidade sustentada. Apesar disso, a artista enfrentou críticas e tentativas de deslegitimação, especialmente em relação à sua voz fina e aguda, que era frequentemente alvo de comentários depreciativos. Contudo, a conexão com seus ouvintes superou essas adversidades, consagrando Luana como um dos nomes mais proeminentes da música alagoana no início dos anos 2000.
O auge dessa trajetória ocorreu em abril de 2001, quando lançou o CD Luana e Banda. Em uma noite memorável, a artista apresentou três shows seguidos no Trapiche, Jacintinho e Benedito Bentes, atingindo um público diversificado e ampliando o alcance de sua música além do reggae. Esse episódio se tornou um marco na sua carreira e na memória da música local, simbolizando o reconhecimento de um trabalho construído à margem da indústria convencional.
Após lançar três álbuns, Luana enfrentou um cenário desafiador para artistas que operam fora do eixo central da música. Em busca de novas oportunidades, a cantora deixou Alagoas e mudou-se para o Sul do Brasil. Longe dos palcos, ela se aventurou em outra carreira profissional, mas a música sempre esteve presente em sua vida, em um papel de coadjuvante.
O reencontro com sua essência musical começou a tomar forma em 2019, com o convite para participar do documentário “Ainda te amo demais”. Nesse projeto, Luana decidiu retornar aos palcos. Neste domingo (18), a artista se apresentará no Verão Massayó, trazendo de volta o repertório que fez parte da nostalgia dos anos 2000 e o forte vínculo criado com seu público. Em uma entrevista ao Caderno B, Luana compartilhou detalhes sobre sua trajetória, o tempo longe dos palcos e os momentos marcantes de sua carreira.
A Descoberta da Música e os Desafios Iniciais
CADERNO B: Desde criança, você manifestava o desejo de ser cantora. Como foi o início dessa carreira? Em que momento esse desejo tornou-se realidade?
Luana: Aos 9 anos, mudei-me para o Joaquim Leão, no Vergel do Lago. A família do meu pai já residia lá, e meus domingos eram sempre repletos de música, dança e momentos em família. Desde pequena, sonhava em cantar. Eu passava horas imaginando um futuro diferente e sonhando em gravar um disco. A música sempre foi meu refúgio, mesmo em tempos difíceis.
O início da minha carreira foi um desafio. Minha timidez era um obstáculo, e muitas vezes me senti sozinha, mas a fé e a música foram meu sustento. Transformei minhas dores em força e resistência.
O Chamado do Reggae e o Retorno à Música
Quando você e suas amigas começaram a escrever músicas de forró aos 15 anos, qual foi a importância desse primeiro contato com a composição?
Luana: Foi ali que percebi que poderia dar voz aos meus sentimentos. Apesar das dificuldades financeiras, persistimos em transformar nossas letras em músicas. O destino me levou à casa do DJ Marquinhos Rasta, onde descobri que o reggae poderia ser meu caminho. Isso me fez perceber que poderia ser uma voz e uma líder.
Após deixar Alagoas em 2013, você enfrentou diversos obstáculos na busca por fazer música. O que a motivou a retomar esse sonho?
Luana: A falta de apoio e as experiências frustrantes com empresários desonestos me levaram a buscar novos caminhos. Ao migrar para o Sul, encontrei estabilidade e um novo começo, mas a música nunca me abandonou.
A Reencontrando com a Música
Você menciona que, mesmo longe dos palcos, a música sempre esteve presente em sua vida. Como isso se manifestava no seu cotidiano?
Luana: Mesmo trabalhando em outra área e criando minhas filhas, a música era uma constante em minha vida. Melodias e letras surgiam naturalmente, me lembrando da minha verdadeira essência.
Agora, após tantas transformações, quem é a Luana que retorna à música hoje? O que mudou e o que permanece?
Luana: Retornei aos palcos em 2019 mais madura e fortalecida. A essência permanece, mas minha visão sobre a música e a vida evoluiu. A música é mais que um sonho, é uma missão.
Participar do documentário foi um reencontro emocionante com minha história e com o público. Agradeço à Flávia Correia e sua equipe por possibilitar esse retorno. A música faz parte de quem eu sou, e estou pronta para reviver essa jornada.

