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    Início»Saúde»Reformulação dos Sistemas de Saúde na Amazônia: Uma Necessidade Urgente diante das Mudanças Climáticas
    Saúde

    Reformulação dos Sistemas de Saúde na Amazônia: Uma Necessidade Urgente diante das Mudanças Climáticas

    14 de janeiro de 2026
    Reformulação dos Sistemas de Saúde na Amazônia: Uma Necessidade Urgente diante das Mudanças Climátic
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    Repensando a Saúde na Amazônia

    Uma equipe de especialistas brasileiros defende, em um artigo publicado na revista British Medical Journal, a necessidade de reformular os sistemas de saúde na Amazônia diante das mudanças climáticas e da crescente insegurança alimentar. A proposta inclui a valorização de saberes tradicionais e a atenção às especificidades das comunidades locais. Com a COP30 prestes a acontecer na Amazônia e a elaboração de um plano nacional de saúde e clima pelo Ministério da Saúde, o artigo propõe um olhar crítico sobre o Sistema Único de Saúde (SUS) na região, sugerindo a criação de indicadores que reflitam as particularidades amazônicas e a adaptação de práticas de cuidado ao território.

    “O setor de saúde tem se manifestado de forma tardia no debate sobre a emergência climática, especialmente no que diz respeito à adaptação. No entanto, deveria ser protagonista, já que eventos extremos, como ondas de calor e enchentes, têm afetado cada vez mais pessoas”, afirma Gabriela Di Giulio, professora da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP) e uma das autoras do artigo. Di Giulio também integra a Coordenação Científica do Programa FAPESP de Pesquisas em Caracterização, Conservação, Restauração e Uso Sustentável da Biodiversidade (BIOTA-FAPESP).

    A Integração de Saberes Tradicionais e Científicos

    Os pesquisadores argumentam que reimaginar a saúde na Amazônia deve incluir uma visão crítica de sustentabilidade. Isso implica fortalecer estratégias que combinem saberes tradicionais, científicos e políticos. Entre as sugestões apresentadas, destaca-se a vigilância em saúde baseada na comunidade, inspirada nas epistemologias indígenas. “É crucial valorizar os conhecimentos tradicionais sobre alimentação e práticas dietéticas para combater a disseminação de alimentos ultraprocessados. Em algumas localidades, já existem iniciativas do sistema público de saúde que adotam essa abordagem híbrida. Um exemplo significativo é o trabalho das parteiras, que unem práticas biomédicas a saberes ancestrais para garantir cuidados em áreas remotas”, defende o artigo.

    Modelo de Adaptação Orgânica

    Os pesquisadores propõem um modelo de adaptação orgânica que considera rios e florestas como elementos ativos nos processos de saúde, reconhecendo os povos tradicionais como detentores de conhecimentos essenciais para a resiliência climática. Utilizando o conceito de “territórios fluidos”, amplamente aplicado pela Fiocruz Amazônia, eles destacam a importância dos rios como principais vias de transporte para acesso a serviços de saúde. “Nos últimos anos, durante as secas de 2023 e 2024, muitas comunidades ficaram isoladas, sem acesso aos postos de saúde, devido à diminuição do nível dos rios. Isso resultou em um agravamento das condições de saúde, com aumento de doenças transmissíveis e fome”, explica Leandro Giatti, professor da FSP-USP e coautor do artigo. “Esses fatores devem ser considerados, e a saúde deve se adaptar a essa nova realidade.”

    Desafios e Riscos Futuramente

    Di Giulio destaca que, se o modelo de desenvolvimento atual persistir e os acordos climáticos não forem cumpridos, a sociobiodiversidade da região poderá estar em risco, aumentando o sofrimento social e os danos relacionados às mudanças climáticas. Os autores sublinham a visão holística de saúde dos povos indígenas, que abrange dimensões espirituais, sociais e ambientais. Doenças como a malária e a COVID-19 são percebidas não apenas como problemas biológicos, mas como reflexos de desequilíbrios resultantes de ações humanas e desrespeito ao meio ambiente.

    O artigo também critica a forma como a Amazônia tem sido tradicionalmente tratada como um espaço a ser explorado economicamente, ressaltando que políticas públicas que ignoraram os direitos e a presença dos povos indígenas geraram perda de biodiversidade e impactos severos na saúde física e mental das populações locais.

    Dossiê Sobre Mudanças Climáticas e Saúde

    Além do artigo sobre saúde, o grupo de pesquisadores publicou mais três artigos, formando um dossiê que explora a relação entre mudanças climáticas e saúde. Um dos textos analisa como a atuação de lideranças mulheres indígenas durante a pandemia da COVID-19 no rio Negro pode oferecer ensinamentos valiosos para enfrentar as emergências climáticas. O terceiro artigo discute a necessidade de novas formas de governança socioambiental na Amazônia, enquanto o quarto aborda as contradições internas do Brasil em sediar a COP enquanto enfrenta desafios relacionados à exploração de petróleo e à aprovação de legislações antiambientais. “Nosso dossiê busca trazer uma perspectiva decolonial, a partir de nossas pesquisas e experiências, prioritizando temas que refletem as complexidades do Sul global”, conclui Di Giulio.

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