Grupo de Apoio para Enlutados em São Paulo
Na zona oeste de São Paulo, especificamente na UBS Jardim Colombo, a psicóloga Pamella Becegati coordena um grupo de apoio voltado para pessoas enlutadas. Durante uma de suas sessões, acompanhada pela reportagem em dezembro, o jovem Wellington Barreto dos Santos, de 25 anos, expressou seus sentimentos por meio da música “Girassol”, de Priscilla Alcântara e Whindersson Nunes. Para ele, essa canção é um símbolo de sua busca por reencontro e felicidade.
Wellington entrou no grupo há cerca de quatro meses após a perda de duas tias e um amigo, episódios que desencadearam uma severa ansiedade. Ele recorda que a primeira tia faleceu há cinco anos e que isso deixou um vazio imenso em sua vida. “Era uma relação cheia de afeto e sonhos. Levo uma foto dela em todas as minhas viagens. A outra tia, eu a encontrei morta em casa. Foi como arrancar um pedaço do meu coração. E o meu amigo, que tinha uma vida tão cheia de energia, morreu em um acidente”, desabafa.
Ele revela que, por um bom tempo, suportou a dor em silêncio, sem se abrir nem mesmo para os pais. “Ficava isolado no quarto. Agora, aqui no grupo, encontrei afeto. Passei a enxergar a vida de maneira diferente. Consigo relembrar os bons momentos sem temer as crises de ansiedade”, compartilha Wellington.
A Música como Ferramenta de Reflexão no Luto
A psicóloga Pamella acredita que a música pode ser uma poderosa ferramenta de reflexão. Em suas sessões, ela incentiva os participantes a compartilharem qual foi o primeiro pensamento que tiveram ao ouvir uma canção e quais memórias ela evoca. Essa abordagem é fundamental para promover uma conexão emocional com suas experiências e sentimentos.
O luto é um processo complexo, envolvendo reações emocionais, físicas e sociais que surgem após uma perda significativa. Muitas vezes, essa dor pode dificultar a retomada das atividades diárias e provocar o isolamento social. Em 2022, o Ministério da Saúde passou a reconhecer o luto prolongado como um transtorno mental, enfatizando a importância de apoio psicológico.
Apoio Psicológico nas Unidades Básicas de Saúde
De acordo com a Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, as pessoas em luto que buscam apoio psicológico podem encontrar acolhimento nas UBSs. O atendimento é realizado por uma equipe multiprofissional, sendo que a assistência pode ser individual ou em grupos, dependendo da gravidade da situação. Normalmente, uma assistente social acompanha as atividades, garantindo os encaminhamentos adequados na rede de saúde.
Massumi Hirota Tunkus, de 65 anos, é uma das participantes que encontrou no grupo a oportunidade de viver o luto. Com a morte do marido, há 18 anos, ela se sentiu incapaz de processar sua dor devido às responsabilidades com os filhos e a mãe, que sofreu um AVC. “Eu estava estagnada e cheia de situações mal resolvidas. Ao chegar no grupo, encontrei uma nova família, um espaço onde ninguém me julga”, relata.
Solange Maria de Assunção Modesto, 61 anos, também compartilha sua experiência de perda. A partida da irmã, após complicações de saúde, a deixou sem chão. “Fazíamos tudo juntas. É como se um pedaço de mim tivesse ido embora. As trocas de experiências aqui são essenciais para encontrar força”, menciona.
Dinâmicas de Grupo para o Processo de Luto
Durante as reuniões, os participantes utilizam objetos simbólicos, como pinhas de eucalipto, para refletirem sobre suas emoções e o luto. Pamella explica que essas dinâmicas ajudam a trazer à tona questões de liberdade e paz interior. “Manusear a pinha ajuda a entender como cada um sente a dor e o que deseja mudar em sua vida”, diz a psicóloga.
Maria Neuza Ferreira da Silva, de 71 anos, entrou em depressão após a morte de seu marido, há sete meses. Sua filha, Leirilene Ferreira da Silva, destaca que, após três meses frequentando as sessões, a mãe retornou a algumas atividades cotidianas. “Estamos muito gratas à doutora Pamella. A terapia foi crucial na recuperação dela”, afirma.
Os encontros na UBS Jardim Colombo ocorrem às segundas-feiras, das 16h às 17h, e abrigam cerca de dez participantes. Pamella utiliza diversas dinâmicas, incluindo a criação de diários, onde os participantes escrevem sobre o que gostariam de ter dito aos entes queridos que partiram. Essa prática se mostra uma forma eficaz de expressar emoções e lidar com o luto.

