Transformação Econômica no Agreste Alagoano
No coração do Agreste alagoano, Arapiraca está mostrando que não é necessário estar à beira-mar para colher os frutos da Economia do Mar. Nos últimos anos, a cidade se destacou como um polo produtivo de camarões, beneficiando-se do crescimento desse setor. Dados do Sebrae Alagoas indicam que o último ciclo produtivo gerou 230 toneladas de camarão, movimentando R$ 5,3 milhões na economia local.
A cadeia produtiva da aquicultura, especialmente a carcinicultura, está em plena expansão no estado. Segundo um estudo intitulado “Economia do Mar em Alagoas”, realizado pela Federação das Indústrias do Estado de Alagoas (FIEA), esse setor é uma parte vital da matriz econômica relacionada ao uso dos recursos marinhos.
Arapiraca Liderando a Produção de Camarões
Surpreendentemente, Arapiraca superou a capital do estado em termos de atividade no setor, com cinco empresas atuantes na cidade e um total de 13 estabelecimentos dedicados à criação de camarões em água salgada. De acordo com o estudo, a produção de camarão em Alagoas cresceu significativamente entre 2019 e 2024, com um aumento marcante de 34% entre 2019 e 2020. O ápice foi alcançado em 2024, quando foram cultivados mais de 1,9 milhão de quilos de camarão.
Um dos protagonistas dessa história é Yuri Amorim, que, após voltar de um mestrado no Paraná em 2016, decidiu investir na criação de camarões seguindo o modelo bem-sucedido em estados como Ceará e Rio Grande do Norte. Apesar de ceticismos, até mesmo de sua própria mãe, que se questionava sobre o que um engenheiro de pesca faria em uma cidade sem água, Yuri persistiu.
A experiência superou todas as expectativas e, nove anos depois, a Associação dos Criadores de Camarão de Alagoas (Accal) já conta com 200 membros. Yuri, que preside a associação e atua como consultor do Sebrae, reflete sobre os desafios e conquistas inicial: “Os erros e acertos dos primeiros tanques escavados são uma prova do pioneirismo na região. Essa é uma cultura que veio para ajudar o sertanejo, criando camarão do Pacífico em baixas salinidades no interior do Nordeste, com produção contínua ao longo do ano”, explica.
Capacitação Impulsiona o Setor
O Sebrae Alagoas, em parceria com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e o Ministério da Pesca, tem promovido um acompanhamento técnico aos produtores do Agreste. No povoado Poção, 20 produtores receberam diagnósticos e suporte técnico por meio do Programa de Cooperação Técnica (PCT), visando fortalecer a aquicultura familiar.
“Ter um engenheiro de pesca visitando a propriedade é uma grande vantagem. Mesmo em um projeto de curto prazo, muitos aspectos melhoraram e ainda podem ser aprimorados”, comenta Yuri, um dos beneficiários do programa. Ele menciona avanços significativos na organização das áreas e na eficiência das rotinas que antes eram negligenciadas. ”O plano de ação que recebi está fazendo toda a diferença. Agora, é seguir adiante e implementar todas as melhorias”, ressalta.
Microcrédito como Ferramenta de Fortalecimento
A evolução da aquicultura em Alagoas também é suportada por programas de microcrédito direcionados a pequenos produtores. De acordo com informações do Banco do Nordeste, em 2024, aproximadamente R$ 40 milhões em crédito foram contratados em mais de três mil operações voltadas para a Economia do Mar, abrangendo pesca, aquicultura e turismo. Em 2025, os números permanecem estáveis, com R$ 38 milhões financiados em igual número de contratos.
“O programa Agroamigo, do Banco do Nordeste, tem sido fundamental para o financiamento na área rural, desde a compra de alevinos até melhorias nos tanques. O Crediamigo, por sua vez, abrange as áreas urbanas, apoiando negócios como peixarias e restaurantes que fazem parte da cadeia produtiva do pescado. Maceió e Arapiraca concentram a maioria das operações urbanas, enquanto o litoral norte tem recebido incentivos específicos para o turismo, integrando capacitação, crédito e articulação institucional”, explicou o BNB.
Aquicultura e a Diversificação Econômica
Para o economista Fábio Leão, a aquicultura representa um movimento amplo de diversificação da Economia Azul, que é essencial para estados de menor porte como Alagoas. Ao investir em atividades sustentáveis de criação de peixes e mariscos, os municípios conseguem reduzir a dependência de um único vetor econômico, geralmente ligado ao turismo, e criar fontes de receita mais estáveis, impactando diretamente a segurança alimentar e a renda dos pequenos produtores.
A aquicultura não apenas permite uma produção constante ao longo do ano, mas também é estratégica para criar economias locais mais resilientes. Contudo, essa diversificação só se traduz em desenvolvimento sustentável se acompanhada de inclusão social e organização produtiva. Para Leão, é crucial que a Economia Azul envolva pescadores artesanais e comunidades tradicionais como protagonistas no fornecimento de produtos e na integração com o turismo comunitário.
Além disso, ele enfatiza que políticas públicas voltadas à qualificação técnica são decisivas para romper com modelos extrativistas e incentivar a adoção de tecnologias de alto valor agregado, mantendo jovens nas regiões e reduzindo desigualdades históricas nas áreas costeiras e interiores. “O verdadeiro divisor de águas da Economia do Mar é a educação, que transforma o crescimento econômico em desenvolvimento social genuíno”, conclui.

