Região litorânea de Alagoas concentra votos bolsonaristas
Em meio a um Nordeste dominado pelas cores vermelhas que simbolizam as vitórias de Lula (PT), uma faixa entre o litoral e a Zona da Mata de Alagoas apresenta um contraste significativo, tingindo-se de azul no mapa eleitoral. Essa tonalidade representa as cidades onde Flávio Bolsonaro (PL) obteve vitória no primeiro turno das eleições recentes.
O fenômeno, embora já conhecido, ganhou força em 2026. Neste ano, 16 municípios — todos localizados no litoral ou em sua área de influência — votaram majoritariamente em Flávio, o que representa o dobro dos municípios conquistados por seu pai, Jair Bolsonaro, em 2022. Esses números correspondem a mais da metade das 30 cidades nordestinas que deram vitória a Flávio no pleito.
Maceió e o avanço bolsonarista
Na capital alagoana, Maceió, o bolsonarismo mantém uma presença consolidada desde 2018, diferentemente das demais capitais nordestinas. Tanto Jair quanto Flávio Bolsonaro sempre superaram Fernando Haddad e Lula nas urnas locais. No primeiro turno deste ano, Flávio obteve 52,36% dos votos contra 41,09% do petista. O deputado federal Alfredo Gaspar (PL), vice na chapa de Flávio, tem origem em Maceió e registrou votação expressiva em 2022.
Esse cenário é discrepante quando comparado às regiões do agreste e sertão de Alagoas, onde Lula venceu com ampla vantagem. O resultado estadual consolidou a vitória do petista, que obteve 54,73% dos votos (995.459 votos), contra 40,45% (735.718 votos) de Flávio.
Cidades turísticas impulsionam votos de Flávio Bolsonaro
Maragogi, conhecida como o “Caribe brasileiro”, foi o município nordestino onde Flávio Bolsonaro alcançou o maior percentual de votos, com 57,34% contra 39,1% de Lula. O prefeito local, Dani Mendes (PP), declarou apoio a Flávio no segundo turno, seguindo a orientação do deputado e senador eleito Arthur Lira (PP).
Outras cidades do litoral, como São Miguel dos Milagres, Marechal Deodoro — famosa pela praia do Francês — Porto de Pedras, que abriga a praia do Patacho, e Barra de São Miguel também apresentaram liderança bolsonarista.
O presidente do PT em Alagoas, deputado estadual reeleito Ronaldo Medeiros, avalia que a região concentra parcelas da população com maior poder aquisitivo e que há pressões sobre os trabalhadores locais. Ele destaca que, enquanto no sertão a agricultura familiar predomina e oferece outra dinâmica política, nas áreas litorâneas os grandes empreendimentos exercem influência decisiva.
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Ronaldo Medeiros demonstrou insatisfação com o resultado eleitoral. “Ganhei, mas nem comemorei. Vamos comemorar o quê aqui?” Na avaliação dele, o PT enfrenta dificuldades para se comunicar com a juventude e a população em geral, sobretudo diante das transformações nas formas de engajamento político, que migraram para as redes sociais.
Derrotas do PT nas disputas estaduais
Além do desempenho nas cidades litorâneas, o PT sofreu derrotas importantes na eleição estadual. Renan Filho (MDB), candidato ao governo apoiado por Lula (PT), e os candidatos ao Senado, José Wanderley (MDB) e Renan Calheiros (MDB), não foram eleitos, revertendo o quadro de 2022, quando os nomes respaldados pelo petismo venceram.
Na disputa para a Câmara dos Deputados, o único representante do PT, Paulão, não conseguiu a reeleição, pois a federação não atingiu o número mínimo de votos para garantir pelo menos um mandato. No entanto, na Assembleia Legislativa, o partido ampliou sua bancada de um para três deputados estaduais.
Fatores que explicam o avanço bolsonarista
Especialistas da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) indicam uma combinação de fatores para o avanço do bolsonarismo na região metropolitana e na faixa litorânea. A professora Luciana Santana destaca que o bolsonarismo já é tradicionalmente forte na capital e que sua penetração no litoral se dá também por meio das elites locais.
Segundo ela, o lulismo enfrenta dificuldades em transformar o apoio presidencial em identidade política estadual. Outro ponto que diferencia Alagoas dos demais estados do Nordeste é a identidade conservadora da população, ancorada em pautas relacionadas a costumes, segurança e religião. Em 2002, José Serra (PSDB) venceu Lula no segundo turno apenas em Alagoas, o que evidencia essa singularidade.
Para a professora, o voto na família Bolsonaro é menos dependente da conjuntura e mais ligado ao antipetismo e demandas por segurança e valores tradicionais.
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Fonte: cidaderecife.com.br
Histórico do PT em Alagoas e influência de outros partidos
O histórico do PT em Alagoas ajuda a entender a dificuldade na capital e no litoral. O partido nunca se consolidou como força tradicional no estado, diferentemente de outras regiões do Nordeste. O professor Ranulfo Paranhos observa que o PT não conseguiu eleger prefeitos nos interiores nem obter a vice-governadoria ou a capital do estado.
Em 2026, o apoio do governador eleito JHC (PSDB) a Flávio Bolsonaro reforçou a base do deputado Arthur Lira, que atuou ativamente na campanha dos municípios litorâneos. Paranhos destaca que a marca Lula é importante, mas insuficiente para garantir vitórias nessas regiões.
Historicamente, o PT atuou em coalizões com partidos mais fortes localmente, como PSB, PDT e MDB — este último ligado à família Calheiros, que governou o estado desde 2015. Em nome de acordos nacionais, o PT abriu mão de candidaturas mais competitivas para compor com aliados de Lula em outras unidades da federação.
Ranulfo Paranhos enfatiza que, diante da fragilidade histórica do PT, a força da imagem de Lula não se traduziu automaticamente em vitórias locais em áreas urbanas e economicamente relevantes.
Perspectivas para o PT em Alagoas
Sem deputado federal e fora da aliança com o governo estadual, o PT enfrenta um cenário desafiador para 2027, que pode se agravar caso Flávio Bolsonaro vença o segundo turno. A vereadora e deputada eleita Teca Nelma, com 27 anos, aparece como a principal aposta para renovação do partido. Ela é a candidata do PT mais votada no estado em 2026 e tem presença marcante nas redes sociais e nos movimentos populares.
Teca Nelma atribui parte da dificuldade do PT à comunicação. Ela observa que os municípios da faixa litorânea têm perfil de pequenos e médios empresários e prestadores de serviços que percebem o Estado como adversário. Para ela, embora entenda esse sentimento, é fundamental esclarecer que o bolsonarismo favorece as elites e reforçar a mensagem do PT voltada às classes médias e populações vulneráveis para virar o jogo eleitoral.

