Fragilidades Internas e Externas na Ciência Moderna
Mesmo aqueles que sempre foram críticos ao cientificismo limitado se surpreendem com a rapidez com que a confiança na metodologia científica está se desgastando. O problema não vem apenas das fake news e bolhas ideológicas que corroem os fundamentos científicos por fora; fissuras internas também se ampliam de forma preocupante.
Historicamente, existiram incentivos para manipulação de dados e imagens, principalmente na disputa por recursos e posições acadêmicas. Agora, com a inteligência artificial, essas práticas desonestas ganharam escala e sofisticação, entrando numa era de reprodutibilidade gerada por máquinas, que dificulta a detecção artesanal de fraudes.
O Fenômeno dos Artigos ‘Zumbis’ e Seus Impactos
Apesar de haver tecnologias para identificar fraudes, o número de cancelamentos (“retractions”) de artigos cresce, mas a quantidade total de publicações avança ainda mais rápido, deixando várias irregularidades passar despercebidas. Muitos trabalhos fraudulentos continuam circulando como “zumbis”, sendo citados em outras pesquisas e contaminando revisões sistemáticas, especialmente na biomedicina.
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A medicina baseada em evidências valoriza a base Cochrane como referência fundamental para orientar práticas clínicas e políticas públicas. Contudo, uma auditoria interna revelou que quase 1% das 9.500 revisões Cochrane contém artigos “mortos-vivos”. O esforço atual é identificar essas publicações e avaliar se elas comprometem as conclusões dos estudos.
Essa iniciativa é um respiro de racionalidade em meio a um cenário de crescente desinformação que enfraquece o valor das evidências científicas. Durante a pandemia, por exemplo, decisões políticas e diretrizes clínicas foram influenciadas por convicções ideológicas, e não apenas pelos dados científicos.
O IPCC e os Desafios da Ciência do Clima
No campo da ciência climática, o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) funciona como a Cochrane do clima, enfrentando ataques constantes do negacionismo, especialmente da indústria de combustíveis fósseis. No recente encontro preparatório para a COP31, países como Arábia Saudita e Índia questionaram as bases e previsões do IPCC, inclusive a meta global de limitar o aquecimento a 1,5ºC adotada em Paris (2015).
Essas disputas políticas importam pouco diante do impacto humano: a Organização Mundial da Saúde estima que, só na Europa, 200 mil mortes poderiam ter sido evitadas em quatro anos devido a ondas de calor extremas. O desafio, portanto, é como restaurar a confiança na ciência para que decisões cruciais em saúde e meio ambiente possam ser tomadas com base em evidências sólidas e transparentes.

