Uma Nova Era de Transformações
No início do século 20, o mundo assistiu a quatro rupturas que mudaram a forma como entendemos a realidade: a Revolução Russa, a teoria da relatividade de Einstein, o abstracionismo na pintura e o dodecafonismo na música. Essas transformações moldaram um período de intensa convulsão, culminando em duas guerras mundiais. Agora, cem anos depois, nos deparamos com outra série de mudanças profundas: a ascensão da inteligência artificial, a edição genômica, a crise das democracias liberais e a fragmentação da autoria artística. Este artigo examina essas novas rupturas e o que podemos aprender com as experiências do passado para construir uma sociedade mais justa e equitativa.
Durante os anos universitários, percebi o impacto dessas quatro rupturas que, de maneira quase simultânea, transformaram a relação entre o homem e o mundo. Essas revoluções, que abrangem a política, a ciência e as artes, configuraram um dos momentos mais densos da história contemporânea. Em menos de duas décadas, conceitos que antes pareciam inabaláveis foram questionados, provocando uma reavaliação dos pilares da existência humana.
A Revolução Russa de 1917 surgiu em um contexto em que Schoenberg desafiava a tonalidade na música, enquanto artistas como Kandinsky e Mondrian rompiam com a representação figurativa nas artes visuais. Einstein, por sua vez, redefinia a relação entre espaço e tempo, abalarando uma das bases mais fundamentais da cognição humana. Essas mudanças não apenas impactaram a esfera intelectual, mas também remodelaram o horizonte geopolítico do século.
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Rupturas Simultâneas: Uma Homologia
Identificar a simultaneidade dessas quatro transformações não deve ser encarado como um mero acaso. Existe uma homologia entre elas: todas desafiaram um centro organizador considerado como natural, eterno ou indiscutível. Na política, a questão da propriedade privada foi colocada em xeque; na ciência, a noção de tempo e espaço absolutos foi desafiada; na pintura, a representação figurativa perdeu seu eixo; e na música, a tonalidade deixou de ser a norma. Essa hierarquia silenciosa desmoronou, e a percepção de um mundo estável começou a se desvanecer.
Praticamente ao mesmo tempo, figuras proeminentes como Einstein e Lênin indagaram: o que ocorre quando não existem privilégios naturais? Qual é a natureza de uma composição sem uma tônica, de uma sociedade sem proprietários ou de um tempo sem um relógio universal? A interseção desses pensamentos cria um terreno comum onde a modernidade se reconfigura.
Quatro Revoluções: Promessas e Desafios
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É fundamental lembrar que toda revolução nasce carregada de promessas, mas também enfrenta resistência. A Revolução Russa, por exemplo, começou com a intenção de abolir a dominação e criar uma sociedade igualitária. Contudo, a centralização necessária para implementar essa nova ordem econômica gerou uma burocracia opaca que, por sua vez, levou à repressão e ao surgimento de uma nova classe dirigente.
Na física, a obra de Einstein revolucionou nosso entendimento do universo, mas também resultou na criação de armas devastadoras, culminando na bomba atômica. Já a arte, ao romper com convenções, permitiu que o abstracionismo explorasse novas dimensões da experiência humana, enquanto o dodecafonismo na música desafiava conceitos de tonalidade e hierarquia sonora.
A Nova Onda de Rupturas
No contexto atual, o século 21 está repleto de rupturas homólogas, mais complexas e interconectadas do que as do século passado. A inteligência artificial, por exemplo, ameaça dissolver as fronteiras tradicionais entre autor e ferramenta, questionando o que é realmente a autoria em um mundo em que a criação pode ser assistida ou simulada. As redes sociais, ao priorizarem a indignação em vez da alegria, moldam o humor coletivo de maneiras que afetam a percepção social.
Da mesma forma, a edição genômica, possibilitada pela tecnologia CRISPR, transforma a maneira como vemos nossa própria biologia. A capacidade de editar o genoma humano desafia as noções de hereditariedade e identidade, enquanto a crise das democracias liberais acentua a erosão das instituições que sustentam a ordem política.
Essas transformações revelam a tensão entre a promessa de avanço e as armadilhas que podem advir da falta de regulamentação e da concentração de poder. O que nos resta, então, é refletir sobre as lições do passado e buscar construir um futuro em que o poder não seja monopolizado, mas democratizado. Será possível reverter esta tendência de desagregação? O desafio está lançado.

