Cenário de Endividamento Aumenta Alarmantemente
Atualmente, o Brasil enfrenta um cenário alarmante de inadimplência, com cerca de 81,7 milhões de CPFs negativados e mais de 80% das famílias endividadas. Um estudo recente da Serasa, intitulado “Mapa da Inadimplência do Brasil: 10 anos”, revela um incremento de 22,7 milhões de inadimplentes nos últimos dez anos. Esta situação acendeu um sinal vermelho no governo, que está implementando um novo programa de renegociação de dívidas para tentar mitigar os efeitos dessa crise.
Renan Silva, professor de economia do Ibmec Brasília, alerta que muitos brasileiros têm utilizado o cartão de crédito como uma “extensão do salário” para conseguir finalizar o mês. Segundo ele, essa prática é uma estratégia equivocada, mas muitas vezes adotada por necessidade. “O endividamento atual é, em grande parte, motivado pela manutenção do custo de vida. Há dados que indicam que os brasileiros utilizam o cartão principalmente para gastos com alimentação e transporte”, destaca Silva.
Ele ainda complementa que quase 85% das negatividades registradas em dezembro de 2025 foram de consumidores reincidentes, o que indica que o crédito tem sido empregado para cobrir buracos recorrentes no orçamento, e não para aquisição de bens ou patrimônios.
Cartão de Crédito: Principal Vilão do Endividamento
A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), conduzida pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), que identifica que o cartão de crédito é responsável por 85% das dívidas do Brasil, reforça essa análise. Esse panorama levanta preocupações sobre a sustentabilidade financeira das famílias brasileiras, que estão lutando para equilibrar seus orçamentos.
Além dos juros elevados dos cartões, um novo fator que tem piorado a situação financeira das famílias brasileiras é o crescimento do mercado de apostas online. Um estudo realizado pelo Ibevar (Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo) e pela FIA Business School aponta as “bets” como um dos principais impulsionadores do endividamento, complicando ainda mais a realidade das famílias brasileiras.
Renan Silva enfatiza que a compulsão por jogos já é considerada uma crise de saúde, com impactos diretos no PIB, pois retira recursos que deveriam ser utilizados para o consumo de bens e serviços, resultando em um custo social e econômico que pode ultrapassar bilhões de reais anualmente. “A atual situação de comprometimento financeiro coloca o mercado em alerta máximo”, afirma o professor.
Silva também aponta que, apesar de o mercado financeiro ter se ajustado, o setor de varejo está enfrentando uma drenagem de renda devido às apostas e ao pagamento de juros. Ele alerta que o risco não se resume a um colapso bancário, mas inclui uma estagnação prolongada do consumo, já que quase metade da renda das famílias está comprometida com dívidas, dificultando qualquer chance de crescimento econômico.
Mudanças no Perfil do Inadimplente
O relatório “10 anos do Mapa da Inadimplência” revela ainda uma mudança significativa no perfil dos inadimplentes: atualmente, as mulheres representam 50,5% dos negativados, uma inversão em relação à década passada, quando os homens eram 50,2%. Para Eber Coelho, especialista em finanças e controladoria, esse fenômeno está ligado à gestão do orçamento doméstico. “As mulheres assumem a responsabilidade por despesas essenciais, como alimentação e educação, que são as mais afetadas durante períodos de inflação. Como suas rendas são, em média, mais baixas e instáveis, o descompasso entre receita e despesa se torna mais evidente”, analisa Coelho.
Idosos em Situação Vulnerável
Outro grupo que merece atenção é o dos idosos. A participação de pessoas com mais de 60 anos no mapa da inadimplência aumentou em 7 pontos percentuais entre 2016 e 2026. Nesse público, a dívida média é superior à dos jovens, girando em torno de R$ 7.200, um valor que se eleva devido aos juros acumulados e ao papel do idoso como “provedor de última instância”.
Coelho pontua que muitas vezes a aposentadoria, embora estável, é utilizada para sustentar filhos e netos em momentos de desemprego ou informalidade. O crédito consignado, embora facilite o acesso ao crédito, pode resultar em um ciclo de endividamento incessante.
Para Coelho, o cenário atual revela um “ciclo persistente de vulnerabilidade”, onde a dificuldade de acesso ao crédito leva os cidadãos a buscar opções mais onerosas, dificultando sua capacidade de reorganização financeira. “Esse não é um problema apenas individual, mas uma questão estrutural que envolve renda instável e falta de educação financeira. Sem melhorias nessas áreas, o Brasil corre o risco de perpetuar esse padrão de endividamento”, conclui.

