Início de um Novo Ciclo no Cultivo de Cevada
Com a chegada do inverno no Sul do Brasil, não é apenas a temperatura que muda, mas também a dinâmica agrícola da região. Neste cenário, a cevada se destaca, ocupando espaços que antes estavam ociosos ou destinados ao cultivo de trigo. Embora passe despercebida para muitos, a cevada desempenha um papel crucial, ligando o esforço da lavoura a uma das indústrias mais significativas do país.
O Brasil se posiciona como o terceiro maior produtor de cerveja do mundo, e é no campo que se inicia a cadeia produtiva desse setor. Para milhares de agricultores da Região Sul, a cevada tornou-se uma importante fonte de renda durante a safra de inverno, além de ser uma alternativa eficaz na rotação de culturas, promovendo um uso mais sustentável da terra ao longo do ano.
Diante da demanda crescente por cevada, a Ambev, a maior cervejaria do Brasil, apresentou uma nova política comercial destinada a estimular a produção desse cereal. A partir deste ano, 50% do valor da colheita de cevada cervejeira será garantido por um preço previamente definido, enquanto a outra metade estará atrelada à cotação do trigo, que compete diretamente com a cevada nas áreas agrícolas. “Atendemos a uma solicitação dos produtores, uma vez que o preço do trigo caiu significativamente no último ano. Estabelecemos R$ 75 por saca, considerando que o trigo está em média a R$ 58 no Rio Grande do Sul, garantindo assim a viabilidade econômica da produção,” explicou Edivan Panisson, diretor de Suprimentos e Sustentabilidade da Ambev, em entrevista à CNN Brasil.
Compromisso com o Cultivo Local
A Ambev tem um histórico de apoio ao cultivo de cevada desde os anos 1980, com ênfase na região de Passo Fundo, onde a empresa opera duas maltarias. “O objetivo é claro: reduzir a dependência de importação e minimizar os custos logísticos. Por isso, estamos incentivando produtores que estão a até 200 quilômetros de nossas fábricas,” acrescentou Panisson, revelando que atualmente a empresa importa cerca de 50% da cevada necessária para a produção.
Como parte de sua estratégia, a Ambev garante a compra de 100% da produção de cevada cervejeira local, oferecendo assistência técnica, manejo e orientação na escolha das variedades a serem cultivadas. Para os grãos que não atendem aos padrões de qualidade exigidos para a produção de cerveja, a empresa também se compromete a comprá-los para utilização como forrageira. O pagamento aos produtores é realizado no final de dezembro, após a colheita, que acontece entre outubro e novembro, com a semeadura ocorrendo entre maio e junho.
Parcerias Estratégicas e Crescimento da Produção
Além de seu contrato com os agricultores gaúchos, a Ambev mantém uma colaboração histórica com a cooperativa Agrária no Paraná. Esta cooperativa, que possui uma planta em Guarapuava, anunciou recentemente a construção de duas novas maltarias em Campos Gerais. “O cultivo de cevada no Paraná é até mais expressivo do que no Rio Grande do Sul e reveste-se de importância estratégica para nós. Por esse motivo, asseguramos a compra de todo o malte da cooperativa, o que representa um valor agregado para seus associados,” enfatizou Panisson.
As perspectivas para o cultivo de cevada no Paraná são animadoras, com a previsão de que a área semeada atinja 111,3 mil hectares em 2026, representando um aumento de 7,3% em relação ao ano anterior, impulsionado pela expansão da indústria de malte. No Rio Grande do Sul, a expectativa é de que a área cultivada atinja 34,5 mil hectares, com um crescimento de 9,9%.
Desafios Climáticos e Inovações no Cultivo
A Embrapa, em suas pesquisas, já testou o cultivo de cevada no Centro-Oeste, mas a necessidade de irrigação elevava substancialmente os custos de produção, inviabilizando essa alternativa. Apesar de Goiás, Minas Gerais, São Paulo e o Distrito Federal apresentarem áreas propícias para o cultivo de cevada, os desafios climáticos permanecem. “O principal obstáculo para a expansão da cevada na Região Sul é o clima. O excesso de chuvas durante a fase reprodutiva pode comprometer a qualidade dos grãos, que não alcançam os padrões exigidos para malteação,” explica Aloisio Vilarinho, pesquisador da Embrapa Trigo.
O cultivo concentra-se principalmente no Paraná e no Rio Grande do Sul, onde a colheita ocorre na primavera. No entanto, as condições climáticas, como ondas de calor e geadas tardias, impactam diretamente as lavouras na fase pré-colheita. Para mitigar essas perdas, a pesquisa tem se concentrado no desenvolvimento de cultivares mais resistentes a doenças e que mantenham a qualidade exigida pela indústria cervejeira.
Iniciativas para Garantia da Qualidade
Além de fomentar a produção, a Ambev também tem promovido o uso de sementes que asseguram a qualidade da cevada. Após 12 anos de pesquisa e cruzamentos, a empresa lançou a cultivar ABI Valente, que se mostrou 16% mais produtiva em comparação às variedades comerciais atuais. Esta nova cultivar, que é 15% maior e mais homogênea, apresenta resistência a doenças fúngicas, contribuindo para a redução do uso de defensivos. A ABI Valente se junta a outras variedades já utilizadas pela empresa, como a ABI Rubi e a BRSCaue, desenvolvida pela Embrapa. O uso da Valente não acarreta custos de royalties para os produtores parceiros, e sua licença poderá ser estendida a outras indústrias cervejeiras no futuro.

