Esquema de Fraudes Revelado
Um esquema de fraudes em concursos públicos está sendo investigado pela Polícia Federal (PF), que aponta a participação do chefe de polícia de Alagoas como um dos mentores. A investigação começou após uma denúncia anônima que levou os agentes até o ex-policial militar Wanderlan Limeira de Sousa, em Patos, Paraíba. Ele e dois irmãos foram aprovados no Concurso Nacional Unificado (CNU) 2024 para auditor fiscal do trabalho, cargo com salário superior a 22 mil reais.
No celular da sobrinha de Wanderlan, a polícia encontrou áudios que ilustram o funcionamento do esquema. Durante uma conversa, seu irmão menciona a necessidade de subornar vigilantes, desativar câmeras e até utilizar um “boneco” — alguém pago para fazer a prova no lugar do candidato.
Métodos de Operação da Quadrilha
A investigação revela que a quadrilha empregava métodos diversificados, como pontos eletrônicos para transmitir respostas durante as provas, fotos de cadernos de questões e acesso antecipado ao gabarito. Segundo a PF, os valores dos subornos variavam conforme a função desejada; para cargos de maior prestígio, como auditor fiscal, o preço poderia alcançar até 500 mil reais.
Na véspera da prova, Larissa, sobrinha de Wanderlan, enviou mensagens ao pai pedindo as respostas. A PF apurou que, antes mesmo do início do exame, ela já possuía o tema da redação e o gabarito.
Personagens Centrais do Esquema
Um dos principais envolvidos é Waldir Luiz de Araújo Gomes, conhecido como “Mister M”, que atuava na Cesgranrio, organizadora do CNU, e posteriormente no Tribunal Regional da Paraíba. De acordo com a PF, ele tinha acesso antecipado às provas e divulgava métodos para violar os envelopes sem deixar rastros. “O lacre é fácil demais, tanto romper e botar de novo”, afirmou em um dos áudios que vieram à tona.
Thyago José de Andrade foi identificado como o chefe da organização criminosa, sendo responsável por recrutar funcionários de instituições que organizam concursos em todo o Brasil. Além do CNU, o esquema se estendeu a seleções para tribunais, bancos federais e universidades. Mensagens interceptadas revelaram negociações que envolviam valores que chegavam a centenas de milhares de reais. Em um dos áudios, Wanderlan menciona uma dívida de 400 mil reais com Thyago por serviços prestados a um candidato.
Colaboração e Novas Revelações
A investigação ganhou impulso após a delação de Thyago e sua namorada, Laís Giselly Nunes de Araújo. Com isso, novos nomes surgiram, incluindo o do delegado-geral da Polícia Civil de Alagoas, Gustavo Xavier do Nascimento. Segundo a PF, Thyago declarou que foi forçado a trabalhar para o delegado, fraudando concursos para candidatos indicados por ele. Além disso, a esposa de Gustavo, Aially Xavier, tentou usar um ponto eletrônico em uma prova para delegado, mas o equipamento falhou.
Outro nome mencionado foi o do investigador da Polícia Civil de Alagoas e vereador em Arapiraca, Ramon Isidoro Alves, que também estaria envolvido no esquema. Na última semana, a PF executou mandados de prisão em Alagoas, Paraíba e Pernambuco, resultando na prisão de dois professores suspeitos de resolver provas para candidatos. O delegado-geral de Alagoas teve sua residência alvo de busca e apreensão.
Candidatos e Defesas
Um caso que chamou a atenção foi o de Larissa Saraiva Alencar, que obteve a primeira colocação no concurso para auditor fiscal do trabalho. A PF alega que seu marido, delegado em Pernambuco, teria pago por sua aprovação, e ela atualmente exerce a função de auditora.
As defesas dos investigados, como Antônio Limeira das Neves e Larissa de Oliveira Neves, rebatem as acusações, alegando que ainda não existe denúncia formal. Thyago e Laís também se defendem, afirmando não terem qualquer ligação com organizações criminosas e se declarando inocentes. Os outros envolvidos não comentaram sobre a investigação. Os acusados poderão responder por crimes como fraude em concurso público, organização criminosa e concussão.

